Carta a Simão Pedro

Pe. Vítor Gonçalves
Voz da Verdade, 2013-04-14

DOMINGO III DA PÁSCOA  Ano C
" Simão, filho de João, tu amas-Me?"
Jo 21, 17

Caríssimo Simão Pedro,
Perdoa-me esta franqueza de me dirigir a ti, o príncipe dos Apóstolos, como se fôssemos amigos de longa data. Mas eu, pelo menos, sinto-me assim, porque desde o meu grupo de jovens, em que Jesus e os seus amigos se tornaram vivos e presentes, tu sempre me encantaste. E quando te vejo nas imagens das nossas igrejas gosto de te imaginar com um olhar mais vivo e um entusiasmo mais apaixonado.
Vim para o pé do mar, aqui em Carcavelos, que é bem mais agitado do que o teu querido Mar da Galileia. Onde primeiro Jesus te cativou e depois te confirmou. Percebeste que Jesus sabia mais de pesca do que tu, e daquela pesca que se chama salvação, libertação do mal para que os homens sejam felizes. Também tu foste pescado e as tuas respostas de amor curaram os "nãos" das trevas da paixão. Ah!, se aprendêssemos contigo a dar mais importância ao amor do que às faltas, e a acreditar que o amor salva enquanto a condenação mata!
Somos tão parecidos contigo. Convencidos das próprias forças e ousados nas certezas, mas depois, frágeis e incoerentes na hora da verdade. Gosto da primeira resposta que deste a Jesus: "andámos a pescar toda a noite e não apanhámos nada, mas porque o dizes lançarei as redes!". É preciso humildade para saber tanto de pesca e ainda assim abrir a mente e o coração a um conhecimento maior. Diante da abundância de peixes revelaste essa humildade: "afasta-te de mim, Senhor, que sou pecador." Começavas a descobrir que o amor de Deus é infinitamente maior que os nossos pecados. E como é triste quem ainda julga e propaga o contrário.
Às vezes sinto inveja de teres estado tão perto de Jesus. A recebê-l'O em tua casa, a subir ao Tabor, a responder a muitas das suas perguntas, a ir ao seu encontro caminhando sobre as águas, a viver as suas alegrias e as suas dores. Essa foi e será sempre a melhor escola para ser cristão: andar com Jesus. E porque Jesus nunca anda sozinho, andar com os outros! Imagino que não terão sido fáceis os primeiros tempos da igreja a crescer. Quantas vezes terás sentido que era uma obra grande demais para um pescador da Galileia? E como gerir as tensões e as diferenças dentro das comunidades? Foi grande a tentação de ficar seguros no ritualismo judaico, não foi? E como integrar aquela universalidade que Paulo de Tarso difundia e fazia tantos abraçar Jesus como Salvador? Fidelidade à tradição mas, sobretudo, coragem para acolher a novidade do Espírito Santo devem ter enchido a tua vida! E deste-a também por Jesus, como Ele te tinha dito junto ao lago.
Todos temos muito a aprender contigo. Mas nestes primeiros dias do Papa Francisco, quero muito pedir-te que o acompanhes e inspires. Que ele possa ser autêntico e corajoso a propor-nos a vida com Cristo. Que ele encontre as melhores ajudas no serviço curial que tens visto crescer na tua Roma (alguma vez imaginaste Sagradas Congregações ou Tribunais Eclesiásticos?), que possa promover a escuta mútua e o diálogo, a corresponsabilidade, a alegria de servir, o gosto de perdoar, a coragem de amar. Que não se sinta sozinho nem deixe que o enredem em tradições "douradas" mas nada evangélicas. Ajuda-o a não "romanizar" a Igreja, que vive e cresce em tantos lugares onde o Espírito Santo continua a levar Jesus ao coração de todos, pois a unidade é a comunhão nas diferenças. Sei que posso contar contigo.
Querido Simão Pedro, dá um grande abraço a Jesus, e a todos do céu que conheço e tanto amo. Obrigado pelo teu tempo!
P. Vítor Gonçalves

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