Incerteza

Público, 06/04/2013

Ao cabo de três meses de uma ansiosa espera, num contexto de considerável urgência nacional, o Tribunal Constitucional conseguiu atirar para as 21 horas de hoje uma decisão que começou a ser anunciada para o fim da tarde, pelo que se costuma entender as seis da tarde. Este tipo de desconsideração pelos cidadãos diz muito sobre a sempre lamentada falta de qualidade da vida cívica portuguesa.
Desta vez, o Tribunal assumiu sem ambiguidades uma fundamentação essencialmente jurídica para decisões que, consoante as fontes, causarão no OE de 2013 um rombo de 1400 a 2000 milhões de euros. O "desvio" envolvido, seja ele qual for exactamente, é "colossal" e certamente impossível de "acomodar" no quadro orçamental com que o Governo vinha trabalhando. Esta constatação serviu de imediato para o dr. Seguro, lá do Algarve, se pôr em bicos dos pés e lembrar a sua disponibilidade para bafejar os portugueses com o rol de benefícios enunciados na moção de censura apresentada há dois dias. O dr. Seguro, infelizmente, confunde listas de desejos com medidas programáticas. Jura que vai renegociar o memorando com a troika: e se a troika não estiver para negociar com ele? Na melhor das hipóteses, e guardando todas as proporções, se o dr. Seguro chegasse à chefia do Governo, acontecer-lhe-ia o mesmo que a Hollande, que ao cabo de poucas semanas meteu o rabinho entre as pernas e se inclinou perante os incontornáveis ditames da dura realidade.
Mas poderá a dupla Passos--Gaspar negociar o que quer que seja? Esta dupla, infelizmente, conseguiu afundar-se num abjecto descrédito. Além disso - o que não é de somenos - continua amarrada ao compromisso de "cortar" mais 4000 milhões de euros na despesa permanente do Estado. A menos que se dê o milagre de uma inesperada benevolência da troika, não é de afastar por completo o cenário de uma demissão do Governo: o afastamento de Passos Coelho, em absoluto indissociável deste desenlace, poderia viabilizar uma grande coligação entre os três partidos do chamado arco da governação, evitando umas eleições que o Presidente da República já considerou, e bem, como um dos piores cenários possíveis. Isto na mais do que duvidosa hipótese de que Sócrates concordaria com a formal deslocação do PS para o campo da "direita", embaraçando a sua projectada candidatura à Presidência da República como candidato de toda a esquerda. No meio de tantos riscos e incertezas, apenas me ocorre o título do romance de Augusto Abelaira - Sem Tecto, Entre Ruínas. Há por aí algum nadador-salvador ?! Historiadora

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