A síndrome da alegria

Inês Teotónio Pereira, ionline em 6 Abr 2013
Se as coisas não correm bem, o máximo que fazem é chorar, e, se apesar do choro as coisas não se alterarem, têm o bom senso de não as piorar ficando deprimidas
As crianças são naturalmente alegres e incrivelmente irrequietas. São duas das suas principais características. É irritante, mas é mesmo assim. Elas nascem assim. A sua alegria é intermitentemente interrompida por alguns choros, mas não são choros de tristeza. Uma criança raramente chora por tristeza porque raramente está triste: pode estar irritada, impaciente, pode querer alguma coisa que não lhe dão, pode ter fome, ter sede, ter calor ou ter sono, mas raramente está triste. Por definição, uma criança não pode ser triste. Não tem idade para isso, não tem tamanho para melancolias, nem tem tempo para incorporar estados de alma tendencialmente depressivos. Tem mais que fazer e o dia não chega para tudo. As crianças podem ser introspectivas, ou seja, podem ser mais sérias que as outras e ter menos sentido de humor, mas isso também não é tristeza: é feitio.
As crianças são irritantemente alegres. E isso é quase tão irritante como ter um amigo que está sempre bem- -disposto, apesar da crise, da Coreia do Norte e da nossa vida em geral. Não é suposto. É suposto sofrer, é suposto estar triste. E um amigo que não está tão triste ou deprimido como nós não é um adulto responsável como nós: não passa de uma criança. Não cresceu, coitado. Ri de quê?
E é por causa desta alegria que nós dizemos que as crianças são irresponsáveis, coitadas, que não sabem o que é a vida. Não sabem o que custa a vida, porque se soubessem não estavam sempre alegres, não queriam ser alegres. Seriam crescidas e sisudas como qualquer ser humano de bom senso que viva no mundo de hoje. Estar triste é como fazer cerimónia com o mundo, com os problemas do mundo e da vida. É quase má-criação não estar triste. Estar alegre, ser alegre, é como vestir de encarnado num enterro.
Nós não perdemos a alegria com a idade; com a idade perdemos a vontade de estar alegres. Achamos que ser alegre é ser um bocadinho pateta, é ser uma espécie de pateta alegre. E isto é das coisas mais patetas que fazemos. Com este esforço de abraçar a tristeza como se ela fosse a prova da nossa maturidade, inteligência e responsabilidade, ficamos patetas. Além de ficarmos tristes patetas.
Ok, é verdade que as crianças não têm a nossa vida. Não têm as nossas enormes preocupações, nem têm a responsabilidade desmesurada de sustentar crianças, de cumprir prazos no trabalho ou até de ter trabalho. Elas não levam o mundo às costas. É verdade. Mas também é verdade que as crianças não têm a nossa autonomia, não têm a nossa liberdade e não têm qualquer poder de alterar o estado das coisas. Elas, ao contrário de nós, não têm outro remédio senão resignar-se perante aquilo que os pais lhe proporcionam ou cumprir as obrigações que lhes impõem. E ainda assim estão alegres, apesar de tudo são alegres.
As crianças são alegres porque querem, porque escolhem estar alegres. Na sua perspectiva, não há outra forma de estar. Se as coisas não correm bem, o máximo que fazem é chorar, e, se apesar do choro as coisas não se alterarem, têm o bom senso de não as piorar ficando deprimidas. Na verdade elas não fazem cerimónia com a tristeza, Simplesmente ignoram e afastam-se do bicho, como se faz com os cães raivosos.

Comentários

Sjjpires disse…
Dá para aplaudir de pé?
Gostei muito, é mesmo isto.. viva as crianças e os patetas alegres!!!

Ass. Uma Pateta Alegre

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