Um espelho

Público 2012-01-10 Pedro Lomba

Aqui há uns anos, aquele que por preguiça jornalística é frequentemente apresentado como "pai" do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut, admitiu em entrevista ao Diário de Notícias que o diploma que criou o SNS foi apresentado no Grande Oriente Lusitano antes de passar pelo Conselho de Ministros. À altura quase ninguém se inquietou com esta extraordinária revelação, que foi proferida como se fosse um acontecimento normal. Mas, agora que rebentou o escândalo das ligações entre novas lojas maçónicas, as secretas e personalidades ligadas ao PSD, o dr. Arnaut, seguido por Vasco Lourenço, anda por aí a garantir a extrema sanidade da velha Maçonaria que nada tem que ver com a cultura de gang que parece ter-se apoderado de outras organizações.
Para os que as comparam a colectividades recreativas, reconheçam por favor que as fraternidades são mais do que um clube de bisca. O misticismo e o esoterismo que os ocupa nunca impediram uma forte mãozinha na política e um insaciável apetite por lugares-chave. Exactamente por isso é que o segredo e a discrição destas organizações são tão acarinhados. Sem esse segredo, perceberíamos talvez melhor por que é que uns se conservaram em altos lugares no Estado durante anos, enquanto outros conquistaram um estatuto para o que não tinham merecimento. Perceberíamos outras coisas. Não é difícil fazer toda uma lista de empreitadas que se explicam por causa dessa velha Maçonaria.
Decidir por isso se os membros da Maçonaria devem ou não sair do armário tem só que ver com esse prosaico desejo de tornar a nossa vida pública mais legível e transparente. Permite perceber o que até aqui vigorava na esfera daquilo que "toda a gente sabe", mas pouca gente pode afirmar com seguranças. A Maçonaria é tão-só uma sede de interesses devido ao espírito de fidelidade e reciprocidade que os confrades têm entre si. E em democracia tais interesses têm de vir à luz do dia. Tão simples quanto isso.
De resto, é certo que a Maçonaria nasceu por razões compreensíveis, como explicou aqui Vasco Pulido Valente, o que é válido tanto para Portugal, como para outras partes do mundo. Em certas regiões de Itália, onde já vivi, a Maçonaria ganhou peso e influência não só porque se constituiu como força hostil à Igreja - e em Itália a Igreja mantém um poder considerável -, mas porque acabou por funcionar também como um forte tampão à entrada na Máfia nas cidades italianas tradicionais. Percebe-se por isso que os maçons italianos procurem uma protecção e um conforto neste género de organizações que sirvam de barreira à penetração de outros grupos.
Em Portugal a realidade é outra. Não há ameaças nem grande coisa que justifiquem organizações secretas. De modo que as descobertas recentes sobre a existência de novas lojas secretas e o seu funcionamento deixam uma pergunta: o que leva numa democracia e numa economia de mercado um grupo de indivíduos livres, alguns deles ricos e com poder, a pensarem que precisam de constituir uma nova organização maçónica para atingir os seus intentos? Não falo de maçonarias contra maçonarias, mas do próprio princípio que lhes passou pela cabeça de que precisavam de uma organização com esse feitio para poderem prosperar. Para nossa desgraça, fornecem um espelho de como funciona o Estado e a sociedade portuguesa no século XXI. Jurista

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