Perguntas que não levam a parte nenhuma

Público 2012-01-28 José Pacheco Pereira
 
Do "desvio colossal" ao silêncio sobre a privatização das rádios públicas e ao falhanço das últimas manifestações de "indignados"

1. POR QUE RAZÃO É QUE CONTINUAMOS SEM SABER SE HOUVE "DESVIO COLOSSAL" OU NÃO?

Com o início deste Governo deu-se algo de muito parecido com o início do Governo Sócrates de 2005 e muito parecido com o Governo Barroso de 2003: na retórica política encontrou-se um "facto-pretexto" destinado a justificar uma inflexão de medidas prometidas em campanha eleitoral. Barroso descreveu um país de "tanga" deixado por Guterres em que o "choque fiscal" seria impossível, embora fosse uma promessa central da campanha eleitoral. Sócrates encontrou no défice virtual convenientemente calculado pelo Banco de Portugal o modo eficaz de esquecer as suas promessas eleitorais de baixar os impostos. Passos Coelho encontrou no "défice colossal" o argumento para cortar metade do subsídio de Natal, que explicitamente jurara não fazer durante a campanha.

Compreende-se como estes argumentos são centrais nos mecanismos de legitimização política. Sem um forte motivo, não haveria maneira de manter a face perante os eleitores ainda bem lembrados por uma memória demasiado viva dos debates eleitorais. Mas eu referi tratar-se de "factos-pretexto", ou seja, tem que ter alguma factualidade. O relatório Constâncio sobre o défice veio a revelar-se muito pouco credível nos seus critérios, mas cumpriu a função legitimadora. O "desvio colossal" exerceu o mesmo papel, mas parece agora contestado por entidades independentes como "facto". Ou seja, a UTAO, muito gabada pela desmontagem que fez dos números orçamentais de Sócrates, agora vem pôr em causa a tese governamental PSD-PP. Ficamos assim sem saber ao certo o que se passou e não é de todo irrelevante tirarmos uma conclusão mais segura. O PS vai desejá-lo, porque isso o iliba, o PSD opor-se-á, porque isso o compromete. Eis uma pergunta que não terá pernas para andar, até porque muitos economistas com um papel central no discurso pró-governamental já se comprometeram com a justificação do abandono das promessas em nome do "desvio colossal".

2. POR QUE RAZÃO NINGUÉM FALA EM PRIVATIZAR AS RÁDIOS PÚBLICAS?

A televisão é o grande instrumento de poder na comunicação social e por isso é normal que a atenção política se centre na privatização anunciada de parte da RTP e no desenho futuro ainda por conhecer da empresa estatal. Mas surpreende-me o silêncio e ausência de discussão sobre o facto de, no universo da comunicação social pública, haver um importante sector de rádio: vários canais de rádio tradicionais, e vários na Internet. Ora todos os problemas que se colocam com os canais televisivos da RTP colocam-se com ainda mais agudeza na rádio, onde a oferta privada é mais sólida e importante e não custa nada aos contribuintes. Temos a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois exemplos influentes de um universo de rádios privadas numeroso e activo, cobrindo todas as formas de música, clássica, ligeira, portuguesa, fado, rock, e um jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo.

O que é que justifica existir um pesado sector comunicacional de rádios públicas? A resposta é certamente a mesma que é dada para os canais televisivos da RTP: à esquerda, ideologia da superioridade do público sobre o privado; à direita poder, manter um braço armado na comunicação social que depende de escolhas políticas.

3. POR QUE RAZÃO FALHARAM AS ÚLTIMAS MANIFESTAÇÕES DOS "INDIGNADOS"?

A comunicação social tem estado relativamente silenciosa sobre o estrondoso falhanço das últimas manifestações "indignadas", como se não houvesse nada a perguntar, nem nada a analisar. O mesmo se diga da patética manifestação contra Cavaco Silva, que nem sequer 200 pessoas reuniu, apesar de ter sido abundantemente anunciada na comunicação social, incluindo a televisiva. Ora tenho para mim que qualquer manifestação hoje que mereça a simpatia benevolente da comunicação social (como aconteceu com os exemplos referidos) que tenha menos de alguns milhares de pessoas obriga a analisar não apenas os factores de atracção em que se baseia o apelo, mas também os factores de repulsão que afastam as pessoas.

A primeira manifestação da chamada "geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de "artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos" movimentos sociais e depreciar os "antigos".

Mas o sucesso da segunda manifestação só existiu enquanto se esteve longe do folclore das "assembleias populares" em frente ao Parlamento e deveu-se ao mais antigo dos movimentos sociais, a CGTP, mais o PCP. Foi isso que encheu as avenidas e foi isso que se rarefez, quando as tropas disciplinadas dos sindicatos e do PCP se recusaram a participar nas cenas excitadas de grupos que acham que o povo são eles e que podem fazer um soviete a brincar nas escadas da Assembleia. Já aqui se percebeu que estavam em jogo factores de rejeição e que essa rejeição foi do vanguardismo mimético da cena entre o hippiee o leninista, no meio de tendas de campismo e lixo, que se pretendeu montar sob o arrogante nome de "assembleia popular".

Por isso, a terceira manifestação foi um falhanço completo. Sem a CGTP, ficou apenas o folclore, alguns genuínos indignados e uma extrema-direita que usa a mesma linguagem dos radicais indignados e por isso estava lá por direito próprio. O mesmo se pode dizer da protomanifestação da "moedinha para o Cavaco", um ainda maior falhanço, apesar da publicidade na comunicação social, em que a todos os outros factores de rejeição se acrescenta o facto de os jornalistas gostarem muito do engraçadismo, mas a maioria das pessoas, mesmo irritadas com Cavaco Silva, não acharem bem o gozo com a figura do Presidente.

Como é que isto vai continuar? Um pequeno número de protoleninistas e anarquistas vão tentar provocar incidentes, como se esses incidentes revelassem qualquer "luta de classes", os "artistas" vão continuar a fazer cenas de rua, e tudo isto só ultrapassará a paisagem do Camões e da Rua do Carmo, se a CGTP e o PCP quiserem. Até agora não quiseram. Historiador

AS PERGUNTAS QUE SE VÃO SEGUIR:

Por que razão é que Obama, mesmo quando faz mal, faz bem?

Por que razão os blogues têm cada vez menos importância?

Por que razão a comunicação social dá importância a coisas sem importância nenhuma?

Comentários

Anónimo disse…
A liberdade de expressão de pensamento na comunicação social, para ser real, requer a imparcialidade que não existe (em Portugal, na Inglaterra, no mundo inteiro).

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