Pobres hábitos

Inês Teotónio Pereira , ionline 10 Nov 2012
Dra. Isabel Jonet, faça o favor de distribuir filet mignon no Banco Alimentar. É isso ou nada
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Diz o ditado que antes pobre e com saúde do que rico e doente. É a lógica do mal o menos mal, e faz todo o sentido. No entanto, é um princípio redutor e revela uma ambição amputada à partida. “Olha, és pobre mas pelo menos não és doente, por isso anima-te e não te queixes.” Está mal. O pobre deve ambicionar ser rico, não se deve resignar à sua condição de pobre só porque tem a tensão arterial controlada, assim como os níveis de açúcar, duas pernas, dois braços e não é vítima de uma doença terminal. O verdadeiro ditado, aquele que revelaria todo o empenho e ambição de todo um povo e de uma cultura, seria este: antes rico e com saúde do que pobre e doente. Esse, sim, é um bom ditado.
Ora é neste ambiente e soterrados de ditados como este que os nossos filhos têm crescido. “Olha, não vais viajar, mas tens dois bracinhos”; “não tens piscina mas tens os dentes todos”; “não recebeste umas chuteiras novas, mas a verdade é que não sofres de asma”. Como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Por isso, surpreende-me que entre as derrotas crónicas do Sporting e este crónico miserabilismo, as nossas crianças, principalmente as crianças sportinguistas, não revelem tendências suicidas em massa. Quando um empate do Sporting é motivo de regozijo, quando os sportinguistas – como os pobres dos meus filhos – ficam radiantes porque o Sporting não perdeu, quando a sua ambição não é vencer, mas sim não perder, quer dizer que o malfadado ditado já minou todo um povo, toda uma geração. Nós olhamos para um copo meio cheio, vemos um copo meio vazio e damos graças a Deus por o copo não estar partido. Uma desgraça.
E é num país como este, cheio de ditados que nos empurram para a resignação colectiva, como se a resignação fosse uma respeitosa herança que devemos preservar, que Isabel Jonet, a presidente do Banco Alimentar contra a Fome (que só pelo nome do Banco a que preside devia ser ouvida com todo respeito), veio à televisão dizer o óbvio: criaram-se hábitos de consumo desajustados nas famílias portuguesas. Em todas as famílias portuguesas: as que podem gastar não pouparam e as que não podem gastar gastaram.
Ui! Não se pode dizer isto. O que Isabel Jonet devia dizer, segundo os arautos da moralidade que não fazem ideia do que é o combate contra a fome e passam os dias no Facebook na luta contra os grandes grupos económicos (ainda há?), é que devemos consumir tudo aquilo que queremos, tenhamos ou não capacidade para comportar as respectivas despesas. Dizem eles, conhecedores do terreno e do drama da fome, que o dinheiro não deve ser condicionante dos hábitos de consumo. Eu tenho hábitos de consumo, logo, preciso de dinheiro. Segundo a doutrina desta gente, não é por se ter menos dinheiro que se deve apagar as luzes desnecessárias, poupar a água, viver sem os todos os canais por cabo, optimizar a alimentação, não gastar e não comprar. Não tenho dinheiro mas tenho o direito a consumir aquilo que me apetecer. Está na Constituição, segundo eles. Por isso, Dra. Isabel Jonet, faça o favor de distribuir filet mignon no Banco Alimentar. É isso ou nada.
Se esta lógica não fosse perigosa, era só estúpida. Já chega sermos nacionalmente resignados e não podemos ser muito menos com a pobreza: por isso é que é tão urgente mudarmos os hábitos de consumo, exactamente para sair da pobreza.

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