Quinta-feira da Espiga: tradição e espiritualidade

J. da Silva Lima
In Communio, 2/2011
SNPC 08.05.13
«O fenómeno da revitalização vegetativa, em que a natureza após a longa letargia invernal acorda, desabrochando numa sinfonia de vida, constituiu sempre para as populações arcaicas, um momento mágico e determinante da visão cósmica da existência. Momento aguardado com ansiedade das perspectivas (perspetivas) de novas colheitas, mas igualmente espoletador da sua efectiva (efetiva) realização, este é o tempo em que chega a Primavera».
Procuraremos, com brevidade, olhar para a Quinta-feira da Espiga na sua origem, no rito que a fez chegar até nós, na coreografia que suporta o seu significado e na possível atualidade, que faz sentir a sua miragem.

1. A origem da tradição não é conhecida por todos. Até pode parecer estranha para muitos. É, entretanto, uma tradição bastante comum no Centro e Sul do país, tendo no Norte uma outra com a mesma origem, mas que se centrou no Maio ou na Maia, flor amarela ou branca que embeleza os ramos das giestas e perfuma os outeiros, em tempo primaveril. Nela se celebra a primavera e se consagra a natureza.
É preciso ir ao passado muito remoto, aos usos muito comuns nas populações campestres que celebravam a deusa Flora, nos inícios da primavera. Os frutos das searas evidenciavam-se, sobretudo quando as papoilas e os malmequeres abriam pétalas e perfumavam os campos. Não era o tempo do relógio na mão, nem do telemóvel no bolso. Escutavam-se algumas badaladas e implorava-se a proteção dos campos. Oferecia-se por ocasião algumas flores e prestava-se singelo culto aos deuses, que se colocavam do lado dos agricultores, protegendo as sementes e fazendo frutificar os campos.
Surgiu o cristianismo e, cedo, soube aproveitar os costumes das povoações,  incutindo  um  espírito novo em tudo o que podia ser alheio. Nessa altura, podiam-se escutar, cada vez mais, os sinos que convidavam à oração e benziam-se os campos que iriam produzir, livres que estavam das intempéries e dos desastres em tempo de frutificação. Recolhiam-se as espigas e as flores, para oferecer ao Deus do universo o que Lhe pertencia e livremente oferecia aos homens, em seu grande benefício.
Vivia-se noutra civilização, com tempo e sem grandes azáfamas que não fossem as que enviavam as populações para a contemplação dos campos floridos. Nesse tempo, era da Igreja que saíam os temas e as ocupações. Foi a responsável pelo batismo  de muitas  práticas, que ainda hoje se fazem nas diferentes povoações. O costume ocupava as gentes que viviam dos campos e gostavam de neles colher espigas e flores. Era dos lavradios bonitos que se colhiam as primeiras flores e espigas para embelezar a igreja e dizer a Deus "louvado seja".
Foi assim aquinta-feira da espiga, ligada à Ascensão do Senhor, em muitos lugares dia santificado, portanto de preceito, quarenta dias depois da Páscoa, a festa da primavera. Em muitas terras não se trabalhava, dia mais dado à contemplação e ao louvor. O Senhor subiu ao céu, para Sua glória e dos campos vinham, sobretudo, as espigas e as flores que O louvavam e enalteciam. Procedia-se a uma dádiva, não só porque os campos davam as primeiras, mas sobretudo porque a Ele pertenciam todos os produtos. O Senhor "subiu" e para Ele "subiam" os primeiros rebentos, já que a primavera era prometedora.
2. O que se fazia era muito simples, como simples era o povo: Visitavam-se os terrenos, onde era agradável ver as flores e apanhavam-se as mais belas com as espigas de trigo e de centeio, de aveia ou de cevada e com ramos de oliveira para oferecer a quem tudo dava do nada. A natureza parecia um milagre e os milagres surgiriam ao longo do ano, se houvesse louvor para quem vê. A festa era de gratidão e de esperança. Gratidão, pela terra que parecia despida e sem nada e que de repente fazia brotar as espigas, as flores e se cobria de vegetação. De esperança, pois um ano estava na frente cheio do que a terra dá e das interrogações que cada momento acalenta.
Era, pensando nos tempos mais remotos, o tempo da terra-mãe. Dela vinha o preciso e o primeiro era sempre motivo de dádiva e de bênção. Dádiva, pois tudo se recebia de quem tinha em abundância e bênção, porque era isso que se implorava, agora ao Deus vivo, outrora às divindades adoradas. Uma mistura de crenças antigas e modernas, que levam as aldeias a estas tradições, que não querem ver desaparecer. No essencial está a vegetação, que era nada e que agora é tudo. A primavera fazia um milagre contínuo e falava aos homens da abundância que só poderá vir de quem pode produzir. «É o milagre da vida, que se renova periódica e inexoravelmente todos os anos. Da terra prenhe eclodem os frutos naturais. Semente divina, condição de sobrevivência, dádiva de fertilidade que as massas urba­nas apenas, hoje, apreciam à distância!» A mãe era profundamente fecunda e isto inspirava um ritual laudatório de ação de graças.
A fecundidade era assim uma força que vinha de um desconhecido, lá donde nasce o sol. Não era preciso discutir muito. Recebia-se o que era pregado, transmitido pelos homens do saber. Antes eram os deuses esse desconhecido, hoje é o Deus que se oculta e tem todo o poder daquele que está sentado no Seu trono de glória, junto de quem Se vai sentar. Assim, já não se sente solitário e sozinho, mas pode louvar Deus que inaugura uma estação de dádivas. E a fecundidade não é anónima, mas pode tributar a prodigalidade ao Criador do céu que faz tão belamente a sua criação, fazendo crescer as espigas nos verdes campos. Colhiam-se e com elas enfeitavam-se belas coroas campestres. O perfume era respirado naturalmente e facilitava o acesso ao autor de tudo, a quem se entregava ainda um raminho de oliveira fresca, Ele que podia trazer toda a paz pela qual as aldeias e as famílias tanto aspiravam. Era assim em ambientes de vida agrícola.
3. O significado ia mais longe. O Senhor «subiu por entre aclamações dos Anjos», como o Primeiro que venceu a morte, e da terra soava a sinfonia que agora executava com cores e com perfumes. Eram as espigas de promessa e as flores coloridas e perfumadas que em primeiro eram oferecidas para se constituírem em garantia de ano fecundo e para se afirmar que tudo é devido ao Criador universal. Constituídas em primícias da terra que cantava de alegria e que pelos homens implorava boas sementeiras e agradáveis colheitas de frutos maduros. As cores das flores eram a alegria da festa e a espiga escondia a promessa do futuro rico e cheio de vigor. Como o Senhor, ficando com todos, se subtraía pela "nuvem que esconde", assim as espigas apresentam o futuro escondido, mas que será benéfico para muitos. A ocasião é de alegre agradecimento.
As leiras cobertas das espigas do centeio, loiras como o ouro que formula auspícios de riqueza, eram promessa escondida do pão. Na vida das gentes, fazia o sustento de todos os dias e augurava bem-estar e paz. Era um alimento de que necessitavam em todas as mesas, pois «onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Era assim um grande dia do ano, pois ali estava o ano inteiro. A sustentação e a paz. Sustentação para a casa e paz com todos, para viver bem na vizinhança. Naturalmente era o dia feliz que garantia a prosperidade o ano todo. Estavam contentes e vestiam-se de flores, pois o próprio Senhor prometia uma presença continuada, «eu estarei convosco até ao fim dos tempos». Presença discreta, real, mas coberta pelo pão que dava a todos. Era assim o dia sagrado do pão. «O pão de Deus é que desce do Céu» e o Senhor «sobe». Percebe-se que fica com todos, já não só para alguns da sua terra, mas para todos, que se vestem de festa e agradecem a sua presença.
Aquele dia era também o dia da hora. Por isso, um dia santo anual, cheio do sagrado que era conveniente para todos. Um dia de tréguas, um tempo de banho novo no espaço diferente, um dia santo «em que não se devia trabalhar, no qual nada bulia, em que as transgressões referentes ao trabalho se revelam ineficazes». Era preciso parar, porque ao meio-dia era «a hora» de todos. Para o Senhor era a hora de entrar no mundo do Pai para sempre, para os homens era a hora de ser diferente: «As águas dos rios não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam, configurando assim o "sinal da cruz".» Era a hora campestre por excelência, sem refúgios, mítica e carregada de magia.
4. Hoje é doutra forma. A civilização mudou de campo. Os campos estão em deserto. As crianças pouco os enaltecem, habituados que estão à vida da cidade, com outros ritos e outros hábitos. Desenham as leiras e as papoilas. E quando se vestem de festa, dão o espetáculo das cores que os norteiam nas bandas desenhadas, que lhes estruturam o pensamento. São convidados a gostar do rio e da floresta numa aula cinzenta coberta de flores do campo de lápis de cores. Vivem o dia da espiga no asfalto de uma estrada e cantam como outrora em ritmos emprestados. Fazem este dia de que a professora lhes falou para recordar e, se levam colares de flores silvestres, é para agradarem aos mais crescidos.
Mais tarde não vão para os campos, mas amontoam-se nas praças para ver passar alguns que fazem um desfile ou uma procissão, à maneira de antanho. Agora é a festa um momento de lazer. Ir ver um campo ou uma leira é um passeio que muito apreciam, para ver as espigas a crescer e para se deixarem inebriar com o perfume das flores reais. O tempo é de descoberta e de euforia delirante, quando se apalpa o coração da terra e se canta um hino ao poder mirabolante da natureza. Junta-se a espiga ao vislumbre do nunca visto e aprende-se a saudar a ecologia e a flora que desperta. Os tempos são outros e os povos vão inventando a alegria do espanto.
Os mais jovens já não apreciam muito um quinhão de terra, porque suja as mãos. Preferem um concerto da "boa" sem sair da cidade. Vivem noutra onda e deixam tudo isto para os mais velhos, que gostam de recordar. O mais remoto é, hoje, dado em espetáculo para todos. O tempo mudou e as tradições persistem ao ritmo da sachola dos mais maduros.

A Quinta-feira da Ascensão, e da Espiga, que deixou de ser feriado nacional em 1952, é feriado nos seguintes municípios: Alcanena, Alenquer, Almeirim, Alter do Chão, Alvito, Anadia, Ansião, Arraiolos, Arruda dos Vinhos, Azambuja, Beja, Benavente, Cartaxo, Castro Verde, Chamusca, Estremoz, Golegã, Loulé, Mafra, Marinha Grande, Mealhada, Melgaço, Monchique, Mortágua, Oliveira do Bairro, Quarteira, Salvaterra de Magos, Santa Comba Dão, Sobral de Monte Agraço, Torres Novas, Vidigueira e Vila Franca de Xira.
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