sábado, 28 de maio de 2016

Férias

Inês Teotónio Pereira
DN 2016.05.28

As férias aproximam-se. As minhas pernas tremem. Há anos que é assim. Não aprendo. O que se faz com meia dúzia de crianças em casa durante três meses? Eles não sabem e perguntam-me: "O que vamos fazer durante as férias?" Bolas, sei lá. Vamos vendo. Acho que nunca perguntei isto à minha mãe. Já sabia. Tudo se passava à volta de uma bola, uma bicicleta, o cão, vizinhos e asneiras. As férias serviam para nos fartar uns dos outros, inventar brincadeiras parvas, explorar a vizinhança, fazer de detetive - seguir pessoas, subir a postes ou árvores, fugir para sítios onde não podíamos ir, solidificar amizades e ver televisão. Até descobrimos uma gruta e muito antes do Clube dos Poetas Mortos. Três meses disto e de alimentação precária porque o almoço era restos e sopa. Não havia tempo nem paciência para mais. O dia era passado fora de casa porque estar parado não era saudável. Nunca percebi porquê, mas pronto. Onde é que andaram? Perguntava a minha mãe para fazer conversa. Íamos a casa de um amigo e depois íamos buscar outro, apanhávamos dois na rua e íamos a um lago todo sujo apanhar girinos. Horas a apanhar girinos. No fim, deitávamos os girinos de volta para o lago. E pronto. Estragávamos facas de cozinhas a jogar ao "mundo" na terra porque não podíamos ter canivetes. Também nos perdemos na serra. Chegámos a fugir de vacas porque invadimos o pasto com a bola. O lanche era em casa de uma amiga, filha única, onde havia sempre Sumol - as casas dos filhos únicos foram sempre as melhores. Passávamos tardes a fazer telefonemas anónimos apesar do cadeado no telefone e a decorar letras das músicas dos LP dos meus irmãos. Acho que foi assim que aprendi inglês. A praia era quando havia boleias. E ficava-se o dia inteiro até se arranjar nova boleia para cima, até podia chover, e chovia (a norte do Cabo da Roca é assim). Chegava ao fim e a professora, no primeiro dia de aulas, pedia para fazermos uma composição sobre as nossas férias. Ainda hoje não sei como é que isso se faz. Uma composição com 25 linhas? Inventava tudo.
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