sábado, 21 de maio de 2016

Problemas reais

Inês Teotónio Pereira
DN 20160521

Os primeiros anos de escola até são fáceis. O pai, o pato, o limão. É só saber como se escreve. Conseguimos. Depois vem a gramática. A coisa complica-se. Entre determinantes, pronomes, verbos e adjetivos, começamos a recorrer ao Google, às gramáticas para nos "lembrarmos". Mas faz-se. As contas de somar e diminuir também são pacíficas. Dominamos. A matéria adensa-se quando se entra na divisão. Ao mesmo tempo que os adjetivos passam a ser detalhadamente qualitativos. Bolas. Precisamos de cábulas: são muitos e parecidos. Chegam as contas de dividir. Ninguém está preparado para isto. Contas de dividir com "dois números". Vamos à calculadora do telemóvel para saber o resultado e depois é por tentativa e erro. Sem perder a compostura. Aparecem as contas de dividir com três números, quatro. Recado para a professora: precisamos de ajuda. Vêm as vírgulas. O resto não dá zero. E começa o nervoso miudinho do fim do dia. Os verbos também têm tempos, conjugações que não acabam. Os reis de Portugal são mais do que os militantes do PCTP-MRPP. É preciso saber cognomes, datas, casamentos, coscuvilhices, enfim. Os sistemas digestivo, respiratório, circulatório vêm com nomes e funções estranhíssimos. É preciso memorizar. Não me lembro... "Espera, deixa ver como é que a professora explicou." Cabulamos. Maldito o dia em que fomos para humanísticas. Evitamos o sistema reprodutivo. Advérbios. Como é que eu sabia isto? O desespero chega com os volumes. Os hectolitros. O tempo que a banheira demora a encher. Conversões, centímetros cúbicos. Chegam as fórmulas e cabulamos outra vez. Com muita dignidade. Os problemas de matemática tornam-se problemas reais. Fazer o IRS é mais fácil. Mas é fundamental que eles não percebam que é possível sobreviver, ser adulto, sem saber quanto tempo é que aquela estúpida demora a encher e que a segunda pessoa do plural está em desuso. E que percebam que têm de saber isto tudo para poderem escolher as áreas de estudo. Mas, não menos importante, é preciso avisá-los de que precisam de saber isto tudo para serem pais.
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