A força das ideias

Miguel Angel Belloso
DN 20160521

Deparámo-nos com a primeira surpresa na corrida para as próximas eleições em Espanha, a 26 de junho. O Podemos, o partido antissistema de Pablo Iglesias, assinou um pacto com a Esquerda Unida, a coligação basicamente composta por comunistas - antigos e modernos - para concorrerem juntos. Chegaram a um consenso. Todo o tempo perdido para a formação de um governo em Espanha permitiu que se tivesse uma ideia mais cabal de Iglesias, um personagem vaidoso e cheio de si que foi expulsando pouco a pouco uma parte dos seus seguidores. E, como as sondagens prognosticam que perderá apoios, um acordo com a Esquerda Unida, que tem um património eleitoral de mais de um milhão de votos, dá-lhe a oportunidade de conseguir os assentos parlamentares que poderiam esfumar-se se fosse sozinho. A Esquerda Unida também poderá conseguir mais representação política e, além do mais, poderá obter o financiamento público de que os comunistas necessitam para liquidar uma avultada dívida histórica. Mas o inquietante deste acordo é que a aliança poderá obter mais votos do que o Partido Socialista e transformar-se na segunda força política do país. Poderá, tal como aconteceu na Grécia entre o Syriza e o velho Pasok, dar um golpe de morte à social--democracia de toda a vida representada pelo Partido Socialista.
Eu não espero nem desejo que tal aconteça. Apesar de o Podemos sempre se ter apresentado taticamente como um partido transversal, em busca do apoio de todos os descontentes - os despejados, os desempregados, os que têm um emprego temporário ou salários precários, os que perderam rendimento, a classe média que baixou o nível de vida, os estudantes preguiçosos e queixinhas, os amigos dos animais, os ecologistas de trazer por casa, etc. -, seria uma ingenuidade desvalorizar as suas segundas intenções e não levar em consideração o eventual futuro de um país dominado por este género de personagens.
No passado domingo 15 de maio cumpriu-se o quinto aniversário do Movimento espanhol 15-M, que deu a volta ao mundo com os seus protestos na Porta do Sol de Madrid, e que foi a origem do Podemos. Ali se juntaram as supostas vítimas do sistema, os alegados deserdados ao grito de "não nos representam", o mesmo que emulam hoje os franceses no clamor de Nuit Debout, que basicamente, como em maio de 68, é o protesto contextualizado e dirigido pelos filhos betinhos da esquerda caviar que, de vez em quando, quer uma revolução no segundo país mais rico da UE, onde metade do país vive à custa da outra metade, e que vai empobrecendo devido à perda de produtividade e ao custo insustentável de um Estado social monstruoso. E o que querem fazer estes jovens coléricos? Em Espanha, pelo menos, e apesar da pose de transversalidade explicitamente destinada a conseguir o maior número de votos possível, o programa de Iglesias é muito parecido com o da Esquerda Unida. É filho do marxismo. Propõe o controlo estatal dos meios de produção, uma banca pública, a reestruturação da dívida, uma subida de impostos para a classe média - rendimentos a partir de 60 000 euros brutos por ano -, um incremento da fiscalidade para as empresas, principalmente para as multinacionais - que, como nos velhos tempos, se transformaram no principal objeto de perseguição -, assim como a direção política dos meios de comunicação públicos e uma espécie de auditoria ideológica dos privados.
Um amigo português diz-me que o Bloco de Esquerda, que apoia, juntamente com os comunistas, o Partido Socialista de António Costa, tem o mesmo ar de transversalidade do Podemos, mas que carece do seu rigoroso programa leninista. Que é antes o reduto da esquerda posh, mais preocupada com questões como a igualdade de género, o casamento homossexual e assuntos folclóricos do que em destruir o modelo de organização política com o qual temos vivido até à data. Pois bem, o que existe para fazer frente a esta escalada da esquerda em ambos os países? Qual é a força real da oposição a estes movimentos telúricos que se avistam em Portugal, Espanha e França? No meu país, o Partido Socialista está num mau momento porque o seu líder atual, Pedro Sánchez, é muito contestado dentro do partido por pessoas que têm cargos de responsabilidade em vários governos regionais e por outros que conservam um grande ascendente na formação política, como é o caso de Felipe González. O Sr. Sánchez empenhou-se em apresentar-se para ser investido como chefe do governo e fracassou, e o seu programa baseia-se numa rejeição dogmática das reformas que tornaram possível, durante o governo de Rajoy, a expansão da economia espanhola, a explosão do emprego e a redução do défice público. Por outro lado, a direita resiste a pegar na tocha da liberdade, que é a única que poderia injetar oxigénio no país. O PP é um partido que renunciou à ideologia, que se refugiou no pragmatismo económico, e que não é capaz de despertar a empatia e a esperança dos cidadãos. Há muita gente de direita que irá votar no PP, no dia 26 de junho, com os olhos tapados. E isto é um drama. No fundo, Rajoy pensa que a ideologia é um engano e que o cidadão acabará por agradecer uma política que resolve os seus problemas mais perentórios ao mesmo tempo que lhe vai engordando a carteira. Mas as pessoas, como as crises, podem ser muito desagradáveis. Têm aspirações imprevisíveis, inquietações surpreendentes e, às vezes, comportamentos extravagantes, por exemplo votar no Podemos sendo de direita.
Esperanza Aguirre, uma das políticas mais destacadas do PP e cujas relações com Rajoy nunca foram boas, acaba de publicar um livro com o título Eu não Me Calo. Ali explica por que o PP, apesar de ter feito uma tarefa colossal para evitar o resgate e relançar a economia, perdeu 3,6 milhões de votantes pelo caminho até às eleições de 20 de dezembro. A sua opinião é que o partido tem vindo a converter-se num grupo de tecnocratas alheio ao tónus vital dos cidadãos. Não aconteceu algo parecido com Passos Coelho em Portugal? Se a isto se somar o sórdido rasto de casos de corrupção torna-se fácil entender a perda de apoios de uma formação que, apesar de tudo, foi a mais apoiada e que, segundo as sondagens, pode voltar a ganhar, inclusive por mais margem. Como conseguir que a distância seja definitiva? Eu penso, como Aguirre, que as pessoas, quando se metem em política, não o fazem movidas pela paixão de que o metro funcione melhor, de que as ruas estejam mais limpas ou de que o PIB suba mais duas décimas. É verdade que os políticos estão ali para tentar que todas estas coisas aconteçam. São objetivos muito louváveis, mas não deixam de ser objetivos primários. Os políticos de casta são dominados por uma ambição que é sempre mais transcendental.
Quando Margaret Thatcher foi eleita primeira-ministra do Reino Unido propôs-se em primeira instância a acabar com as greves que flagelavam o país, combater a inflação e assentar as bases para o crescimento. Mas o seu objetivo final era bastante mais genuíno e estratégico. Propôs-se mudar a mentalidade das pessoas, durante tantos anos corrompida por um socialismo que alimenta a mediocridade. Devolver-lhes a sua autoestima, a confiança em si mesmas. A Espanha atual, o Portugal do século XXI, necessitam de uma terapia liberal que abra as janelas de umas estruturas anquilosadas e fechadas aos ares da renovação, e que permita expandir a energia criadora dos cidadãos. O nosso modelo social tem sido presidido, até à data, pelo consenso social-democrata, por um Estado que intervém demasiado, restringe a liberdade e impede a prosperidade. Rajoy deveria ser o paladino de uma mudança de modelo, e parece-me que o mesmo propósito deveria animar a direita em Portugal se pretender voltar ao poder.
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