terça-feira, 24 de maio de 2016

Voluntariado de parto

José Diogo Quintela
Correio da manhã 21.05.2016 01:45 

É trabalho de parto, não é voluntariado de parto. 
Imagine o leitor que o seu patrão o põe a trabalhar intensivamente durante 9 meses seguidos, sem descanso, numa tarefa desconfortável e enjoativa, proibindo-o de fumar, beber álcool e comer certos alimentos. Imagine que, em vez de lhe pagar mais por isso, não paga nada. Faz queixa ao Sr. Arménio Carlos, não é? Mas, se o trabalho for carregar um bebé na barriga, tem mesmo de ser à borla. O que é estranho, uma vez que é trabalho de parto, não voluntariado de parto. Só que, segundo a nova lei, não pode ser remunerado. Ou seja, se uma mulher der um bebé a outra, que, por sua vez, lhe oferece um presente, o que a lei condena é o brinde. Transacção de bebé, sim, desde que não envolva negócio. O dinheiro suja o negócio de bebés. Só pode ser por amor. A esquerda está radiante. Conseguiu conjugar uma causa fracturante com sanha anti-capitalista. (Por outro lado, está a rejeitar a hipótese de criar postos de trabalho e de regular um mercado laboral. Ah, a terrível escolha de um progressista!) Atenção, o amor não confere pureza a todos os tipos de dádiva. Se, por amor, uma mulher oferecer uma casa de 200 mil euros à sua irmã, o Estado cobra imposto de selo. Mas, se pelo mesmo amor, a mulher oferecer o seu útero para gerar o bebé da irmã, o Estado já não taxa nada. (Dica para fazer doações em vida: enfiar a escritura numa seringa de amniocentese e introduzi-la na própria barriga. Retirar passados 9 meses e entregar à irmã). Isto incomoda-me, porque há aqui uma estupenda oportunidade de negócio. É um mercado com um potencial incrível, o das mulheres que querem mesmo ter um bebé sem passar pela maçada da gravidez e, ao mesmo tempo, receiam adoptar porque nunca se sabe por onde é que aquela gente andou e um dia acordam a meio da noite e assaltam a casa. Será essa a clientela da Incuba d’ouro, a Amazon dos bebés. Trata-se de um serviço premium, para o segmento de luxo, com gestantes impecavelmente fardadas, sempre bem-dispostas (mesmo quando vomitam) e atenciosas no contacto com o cliente. O serviço incluirá um período de 30 dias de experiência, com direito a devolução com reembolso total. Terá também garantia de 2 anos, com substituição total gratuita do bebé em caso de avaria não imputável ao cliente. Claro que, para dar escala ao negócio, há que aumentar a base de clientes. Por enquanto, só mulheres sem útero ou útero danificado é que podem recorrer à gestação de substituição. As outras mulheres tiveram o azar de nascer com úteros em bom estado e, portanto, são obrigadas a suportar a sua própria gravidez, quando podiam perfeitamente recorrer à Incuba d’Ouro. Espero que a lei seja melhorada e se acabe com a discriminação de mulheres com útero, condenadas pela Natureza a penar durante 9 meses só para ter um bebé. 
A tomada de Lisboa aos lisboetas 
Desde o tempo de António Costa que a CM de Lisboa quer que os lisboetas estejam mais tempo fora de casa, a desfrutar da cidade. Isso explica o estaleiro em que Lisboa se transformou: presos a desfrutar o trânsito, os lisboetas não estão em casa. Na vanguarda da inovação, a CML inventou agora outra medida para manter lisboetas na rua. Consiste em retirar-lhes a habitação. 900 anos depois da tomada de Lisboa aos árabes, a CML patrocina a revanche e apresenta-se como um Martim Moniz invertido: está a fazer de calço para os mouros entrarem em casa de outra pessoa. Nomeadamente, expropriando um proprietário para construir uma mesquita. É a nova versão do Estado laico: não tem nada a ver com a religião que se pratica em casa, mas acha que tem a ver com a casa onde se pratica religião. Se a montanha não vai a Maomé, expropria-se Uma das mesquitas mais famosas, Hagia Sophia em Instambul, foi uma igreja cristã. Não é, portanto, a primeira vez que a casa de Alá ocupa a casa do Senhor. Mas é, de certeza, a primeira vez que a casa de Alá ocupa a casa do Sr. Barroso. Se o Sr. Barroso quer ficar em casa, há uma solução: passar de dono a inquilino e deixar de pagar as rendas. É a única forma de não ser despejado. Na CML, o inquilino caloteiro é espécie protegida. Ao contrário do proprietário. Ou, como é conhecido na Praça do Município, o proprietário. 
Não abardinem o bardo 
A Relação de Lisboa condenou o Tenente-Coronel Brandão Ferreira por dizer que Manuel Alegre desertou e traiu a pátria. Como é óbvio, Manuel Alegre não desertou para a Argélia. O resto do exército português é que se enganou e foi para os países africanos errados. E quem acha que Manuel Alegre ajudava os inimigos na Rádio Voz de Argel não sabe que, quando Alegre exorta alguém, dá-se o efeito contrário? Basta ver que depois de lhe dedicar um poema, o Figo nunca mais fez nada de especial. P.S. - Que tipo de metáfora será um homem que lutou contra a censura ir a tribunal censurar outro?

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