TVI não se arrepende do mal que fez

Eduardo Cintra Torres | Correio da manhã 22.05.2016 00:30 
O escrutínio deve ser maior quando o jornalista sabe que uma informação pode ter consequências graves. 

Na noite de 13 de Dezembro, a TVI noticiou: "Está tudo preparado para o fecho" do Banif. Naquele dia e àquela hora, a informação era falsa. Acresce que a frase "está tudo preparado" tinha sujeito e objecto indefinidos: quem preparou? "Tudo" quer dizer o quê? Sérgio Figueiredo afirmou que essa e as notícias seguintes foram sendo "afinadas" nos rodapés (na verdade, foram contraditadas), mas o mal estava feito: contribuiu decisivamente para o descalabro do banco. Figueiredo disse que "era apenas um rodapé", quando um rodapé é uma notícia como outra qualquer. Sendo escrita, exige enorme rigor; não tendo desenvolvimento descritivo e analítico, deve ser pensada palavra a palavra. Também disse que "quando chega uma notícia, dá-se". É falso. Primeiro: o que chega é uma informação, não uma notícia. Cabe ao jornalismo transformar informações em notícias. Segundo: há informações que são trabalhadas horas, dias, semanas e até meses antes de noticiadas. Isso é jornalismo. Vomitar informações sem as escrutinar não. O escrutínio deve ser maior quando o jornalista sabe que uma informação pode ter consequências graves; por exemplo, pondo vidas em risco em situação de guerra. Inventar o fecho do Banif contribuiria para esse fecho, como aconteceu. Por isso, especulou-se sobre quem serviu o rodapé: o Santander, que o comprou em saldo? O governo, que nunca se queixou da notícia da TVI? Com ou sem malícia para servir algum interesse, a TVI foi irresponsável e de intolerável ligeireza. Nenhuma das desculpas dadas por Figueiredo é aceitável: era domingo à noite, eu não estava lá, era só um rodapé. E mentiu: disse que a ERC não tinha aberto um processo de averiguação, quando sabia que a ERC tinha pedido esclarecimentos à TVI, o que implica, no procedimento administrativo estatal, haver um processo em curso. A ERC desmentiu-o no dia seguinte e dois dias depois a SIC divulgou a deliberação da ERC condenando a TVI por irresponsabilidade (com multa absolutamente ridícula, de 459 euros; não esqueçamos que a TVI é "amiga" do governo e da sua ERC). Os deputados interrogaram Figueiredo com rigor, conhecimento dos factos e das regras e técnicas do jornalismo. Fizeram um bom trabalho. A TVI prestou três péssimos serviços ao jornalismo: ao dar uma notícia grave que era falsa naquele momento; ao não reconhecer o erro nas horas seguintes; ao não reconhecer agora, através de Figueiredo, a sua irresponsabilidade, inventando desculpas, manchando o jornalismo ao dizer que cumpriu as regras e até contra-atacando os deputados sem razão. Isso é arrogância, mas até isso Figueiredo negou. ----- Como estragar uma boa reportagem  Alguns media portugueses praticam uma duplicidade quanto a fugas de informação da justiça: se forem estrangeiras, como um telefonema de Dilma para Lula, divulgam; se forem sobre o caso Sócrates, não divulgam. A RTP inaugurou um sub-género desta duplicidade: se a fuga for sobre o caso Sócrates, não divulga; se a fuga servir para prejudicar o juiz Carlos Alexandre, responsável da Operação Marquês, divulga. Foi o que sucedeu com a reportagem, muito útil, sobre a pouca-vergonha na gestão do Cofre da Previdência de funcionários públicos, ao qual os associados podem pedir empréstimos. O assunto era essa pouca-vergonha, mas Sandra Felgueiras, do ‘Sexta às 9’, destacou um pedido de empréstimo do juiz, feito dentro das regras, mas a que o presidente do Cofre deu prioridade e sigilo, não cumprindo as regras. Felgueiras abriu a notícia dizendo que os factos apurados "chegam a pôr em causa o superjuiz", o que nunca foi provado pela reportagem. A cimeira do sistema que nos esmaga Marcelo, António Costa, Centeno e Carlos Costa legitimaram uma conferência organizada por: Associação de Bancos (dois faliram); KPMG (nada viu no BES e no BCP); TVI (ajudou a fechar o Banif). O processo Banif não foi falado. Há muito que não se via uma representação tão horrível daquilo a que os cidadãos chamam o "sistema" que os esmaga.
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