POLÍTICA E CONTEMPORANEIDADE - Notas sumárias a propósito da aprovação da nova lei da eutanásia infantil na Bélgica


Miguel Alvim

Nos escombros da sociedade pós-moderna, os políticos esqueceram-se do bem comum.
Muitas vezes, já não governam, sequer, para quem os elege.
Governam por pulsões pessoais ou para pura e simples promoção de interesses particulares oligárquicos.
Agendas escondidas.
Agenciamento de empregos.
Distribuição de dinheiro e de benesses.
Dir-se-á que foi sempre assim.
Mas não é verdade.
Voltámos à lógica da razão de Estado, mas noutro figurino.
Agora, a violência do poder puro e duro dos novos príncipes que dominam os aparelhos eonómico-financeiro-político-partidário, e por via disso o Estado e todas as suas funções, é exercida para vencer qualquer contingência, objecção ou escrúpulo moral do povo governado, num sequestro social que se tem mostrado imparável e implacável.
Os protagonistas políticos, totalmente dominados, já não acreditam realmente na legitimidade do seu mandato e servem estes novos príncipes sem ligar ao povo, buscando somente a permanência nesse poder (pelo poder) e as correspondentes vantagens financeiras.
A lógica imperial-dominante é que a vida se faz e se desfruta hoje, aqui e agora.
Para vantagem do nosso grupo.
O poder no mundo e do mundo.
Os outros são o nosso inimigo ou o nosso inferno, nunca os nossos irmãos.
Os fins últimos morais que fundam o bem e o direito comuns foram e estão tragicamente abalados.
Depois das revoluções em marcha, das utopias progressistas, da mudança constante com a razão por instrumento e farol, apesar de tudo a pensar-se no bem comum do homem, chegámos a um novo paradigma.
O puro egoísmo, o caos da relativização universal e o princípio da atomização do homem.
Do sonho da possibilidade do absoluto e do conhecimento total caímos no poço e na desgraça do relativismo impassível.
O homem nunca esteve tão só, tão desprotegido, tão abandonado.
De feto à idade adulta, o homem é descartável e bio-degradável como um cartão velho ou uma couve.
O homem já não é o ser feito à imagem e semelhança de Deus.
O homem é um processo e um processo que pode ser interrompido.
Sem Deus, todas as derivas homicidas e mortais são possíveis.
O inferno está anunciado como progresso.
O homem já não é primus, mas ultimus.

Miguel Alvim

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