A escola pública é um inferno?



Alexandre Homem Cristo | ionline, 2014,03,31


Não é porque há escolas onde tudo corre mal que o sistema está comprometido. E não é porque há escolas onde tudo corre bem que não há espaço para melhorias
O que se passa nas nossas escolas? Maria Filomena Mónica (MFM), num livro recentemente editado pela Fundação Francisco Soares dos Santos, responde. E a sua resposta não poderia ser mais incisiva: retratou um inferno, identificou factores para o insucesso e concluiu que a escola pública é má. Nada de surpreendente. Afinal, as conclusões a que chega não diferem das que tinha à partida, e que lhe conhecemos de outras intervenções públicas. Conclusões, aliás, alinhadas com as críticas habituais dos que desconfiam das escolas do Estado - a indisciplina reina, a exigência é baixa, os programas das disciplinas são todos péssimos e os miúdos não aprendem sequer o elementar.
Acontece que essas conclusões são muito discutíveis. Principalmente, por três razões. A primeira deriva da própria natureza da obra. Ao basear-se em relatos de uma dúzia de professoras e alunas, MFM sujeita-se a uma certa tentação pelo insólito, na medida em que só é digno de relato o que escapa à norma (i.e. o que não acontece normalmente). Construir generalizações a partir desses relatos é, por definição, abusivo. E apesar de não se tratar de um estudo científico, como aliás MFM tem referido nas suas entrevistas, não se pode deixar de realçar o óbvio: para além de um problema de representatividade da amostra, a obra sofre de um problema de fiabilidade.
A segunda razão para as conclusões serem discutíveis é que prevalece uma certa noção de "colapso" da escola pública, nomeadamente com a escalada da indisciplina e da violência. Essa ideia está, aliás, particularmente explícita no artigo de Carlos Fiolhais sobre a obra ("Público", 2014.03.19). Mas, o conceito de "colapso" sugere uma pioria da escola pública que, de acordo com os dados oficiais, não existe. Por exemplo, a violência nas escolas está a regredir, e não a aumentar - de 3525 ocorrências em 2008/2009 passou-se a 1446 em 2012/2013 (Cf. relatório A Segurança na Escola, DGEEC, 2014). De facto, apesar de serem cada vez mais mediáticos, esses casos não serão cada vez mais frequentes.
A terceira razão para as conclusões serem discutíveis é a mais significativa: estas conclusões não resistem ao contraditório com as avaliações internacionais dos desempenhos dos alunos. Por mais infernal que seja o retrato desenhado por MFM (em que os miúdos "mal sabem ler e muito menos interpretar o que lêem ou construir frases com sujeito, predicado e complemento directo"), o que essas avaliações nos revelam é o contrário: nunca os desempenhos médios dos alunos portugueses foram tão bons. Talvez fosse o momento de começarmos a acreditar mais nas avaliações, e menos nos relatos.
Apesar disto, a obra da MFM tem uma virtude particular. Legitimando parte das conclusões nos relatos de professoras e alunas, a socióloga dá-nos o retrato do sistema educativo imaginado por quem dele faz parte. Se bem que esse retrato nem sempre coincide com a realidade, não deixa de ser útil para percebermos o seguinte: a fonte de tamanha desconfiança com a escola pública estará, possivelmente, nos seus professores e alunos.
Ora, não é porque há escolas onde tudo corre mal que todo o sistema está comprometido. Tal como não é porque há escolas onde tudo corre bem que não há espaço para melhorias. Certezas, há uma. Só se promove a melhoria a partir de diagnósticos correctos. E apesar dos aspectos interessantes da obra, a base do diagnóstico de MFM não o está.

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