Os equívocos do design


José António Saraiva | Sol | 4 de Março, 2014

Quem introduziu o design em Portugal - ao nível do conceito e da prática - foram profissionais da geração anterior à minha, como Daciano da Costa ou António Sena da Silva, mas só na minha geração esse termo se vulgarizou. Pertenço, assim, à primeira vaga de arquitectos portugueses que começou a falar (e ouvir falar) de design no dia-a-dia.
Naquela época - fim dos anos 60 -, a palavra design não significava exactamente o mesmo que hoje. A expressão original era, aliás, industrial design, e introduzia um novo conceito no mobiliário e, de uma forma geral, em todos os objectos de uso corrente. O objectivo era adequar esses produtos à fabricação em série, à produção industrial. E, para isso, era preciso racionalizar e simplificar as formas.
Tudo isto surgia no seio de uma sociedade em mudança, em que o aumento do preço da mão-de-obra obrigava à industrialização generalizada - levando os 'desenhadores' a adoptar novas atitudes.
Os velhos móveis clássicos cheios de arrebiques, os aparelhos de rádio com caixas de madeira trabalhada, os candeeiros de formas arrevesadas, as máquinas de escrever artísticas, os automóveis de linhas complicadas, tudo isso tinha de ser substituído por objectos mais simples, capazes de entrar nas linhas de montagem e de serem produzidos aos milhares.
Deve esclarecer-se que os designers não eram bem desenhadores, no sentido corrente, mas sim 'conceptualizadores', ou seja, profissionais capazes de conceber objectos com qualidade artística mas também passíveis de fabricação em série. Para isso, precisavam de conhecer muito bem o modo de produção.
E assim começaram a surgir os objectos 'minimalistas', de linhas direitas, que retiravam da simplicidade e da pureza das formas a sua beleza.
Esta nova estética, que se apresentava como 'industrial', enquadrava-se - é necessário referi-lo - numa ideologia de esquerda. Ela vinha ao encontro dos princípios de um grande movimento internacional de revolução nas artes. Na arquitectura, Le Corbusier, arquitecto comunista que defendia a simplificação e a racionalização, liderava o 'movimento modernista', também conhecido por 'estilo internacional'.
Segundo os novos princípios estéticos são produzidos objectos de grande nível. Le Corbusier, Alvar Aalto, Walter Gropius, Mies van der Rohe, Marcel Breuer desenham mesas, cadeiras, sofás, candeeiros, aparelhos de rádio e televisão, máquinas de costura e de escrever. Até na indústria automóvel surgem propostas de design, como os modelos vanguardistas de Sergio Pininfarina.
Tive vários desses objectos de 'culto' (não automóveis, entenda-se!). Aquele a que mais me liguei foi uma máquina de escrever portátil Olivetti Valentine. Era toda vermelha berrante, com os apertos dos rolos das fitas em plástico cor de laranja. Fazia um vistaço. Levei-a uma vez a Paris e o meu pai gostou tanto dela que a 'nacionalizou', obrigando-me a comprar outra no regresso a Lisboa.
Para lá da estética, a máquina tinha um pormenor revelador da racionalidade na concepção. Nessa época, as máquinas de escrever portáteis tinham uma caixa de protecção exterior, que se fechava com molas. Ora, acontecia por vezes as molas abrirem-se e a máquina estatelar-se no chão. A Valentine torneou este problema aplicando a pega de transporte, não à caixa, mas à própria máquina. Assim, mesmo que a caixa se soltasse, a máquina ficava sempre bem agarrada à mão do proprietário. Tratava-se de uma pequena mudança - mas com um grande alcance prático. Um verdadeiro ovo de Colombo.
Aliás, todos os objectos de design nessa época tinham qualquer coisa que os distinguia pela genialidade de um pormenor ou por uma descoberta, que os tornava mais funcionais e 'inteligentes'.
Com o passar do tempo, a expressão industrial design foi sendo simplificada e substituída apenas por design, que designava já não um tipo de concepção mas apenas uma estética.
As pessoas passaram a designar os objectos com certas características formais por «objectos de design». As origens do design foram sendo esquecidas - caindo-se às vezes no extremo oposto: os objectos chamados de design tornaram-se em alguns casos difíceis de produzir, pouco funcionais e até muito caros. O que choca com a intenção de serem produzidos em série para se democratizarem.
Recentemente estive num hotel chamado 'de design', em que tudo era formalmente coerente e minimalista, bonito aos olhos - mas nada prático.
A casa de banho era toda em vidro, inclusive a 'parede' que dava para o quarto - o qual, por sua vez, tinha um grande janelão para o exterior. Passe o exagero, uma pessoa estava a tomar banho nua à vista de toda a gente. Só ao fim de várias tentativas descobri o modo como se accionava uma cortina que isolava o duche.
As torneiras também não eram de utilização fácil, e eu recebi esguichos de água fria ou quente em todas as partes do corpo antes de atinar com o normal chuveiro.
À entrada do quarto havia uma bateria de botões. Fiz várias experiências para tentar perceber para que serviam. Entretanto saí e voltei ao quarto pelas seis da tarde - verificando com grande espanto que ainda não o tinham limpo nem arrumado, continuando a cama por fazer. Fui queixar-me à recepção - e só ao fim de algum tempo se concluiu o motivo da anomalia: ao experimentar os botões, eu tinha carregado num que dizia «Privacy» e acendia uma luzinha no corredor. Ora, ao verem essa luz acesa, as empregadas não entraram no quarto...
No hall do hotel, bastante clean do ponto de vista estético, não havia os tradicionais conjuntos de sofás onde as famílias ou os grupos de amigos se juntam a conversar. Havia uma espécie de puffs grandes isolados, um aqui e outro ali. Sempre que um grupo queria conversar, as pessoas tinham de o fazer de pé (ou então pôr-se de cócoras junto ao puff onde os outros estavam sentados). Conclusão: muito bonito mas nada funcional.
Esta é uma característica que começa a dominar o design moderno: a estética sobrepõe-se à funcionalidade. Contaram-me (pode não ser verdade) que na igreja/bunker projectada por Siza Vieira em Marco de Canavezes, que já recebeu um prémio internacional, o arquitecto foi alertado para uma situação perigosa. A questão é que o lugar reservado para o coro, situado na nave a uns bons metros de altura, não tinha varandim nem qualquer outra protecção - pelo que, caso um dos elementos desse um passo em falso, cairia de grande altura. Pediu-se então a Siza que desenhasse uma protecção qualquer. Mas este, imperturbável, terá respondido: «A pessoa não dê o passo em falso».
Partindo de uma estética industrial para tornar a produção dos objectos mais simples e mais racional, o design, qual monstro de Frankenstein, libertou-se do seu autor e desafia a racionalidade.
Há objectos belíssimos. Tenho uns célebres maples desenhados por Mies van der Rohe em minha casa, de que gosto particularmente. Foram concebidos em 1929, para a Exposição de Barcelona, têm portanto 85 anos, mas ainda hoje são actuais. Porém, quando passo meia hora sentado neles, fico com dores de rins para dois dias.

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