Usos da História
O dr. Mário Soares, que Portugal inteiro respeita e admira, ganhou o direito de dizer o que achar por bem sobre o Governo de Passos Coelho ou sobre outro qualquer de que ele não goste ou ache prejudicial ao país. Mas devia tomar algum cuidado com o uso que faz de lendas políticas, que não assentam na realidade ou que a distorcem. Tudo começou com uma citação de Afonso Costa que prometia ao rei o cadafalso de Luís XVI. Como de facto D. Carlos foi assassinado, parece à primeira vista que a profecia se realizou. Mas não realizou. A frase de Afonso Costa vinha a propósito das dívidas (de resto inteiramente justificadas) do rei ao Estado e não produziu grande agitação. Os republicanos mataram D. Carlos porque, depois de uma revolução falhada, o Governo do dia prendeu e decretou o exílio das principais figuras supostamente comprometidas no caso. Que se saiba, Passos Coelho ainda não prendeu ou degredou alguém. A comparação não se aplica.
E a comparação num artigo de sexta-feira com Hitler e Mussolini também não se aplica. Soares declara que este Governo é teoricamente legítimo, já que o elegeram, mas que Hitler e Mussolini chegaram ao poder, como Passos Coelho, pelo voto. Ora isto é falso. Hitler perdeu uma eleição presidencial (em duas voltas) contra Hindenburgo e o máximo que o partido nazi conseguiu em eleições livres não passou de 37,4%. Pior ainda: pouco tempo antes de o fazerem chanceler, o voto em Hitler, na última eleição livre da República de Weimar, desceu para 33,1%. Sem aliados, nem dinheiro, o homem estaria perdido. Infelizmente, a direita ultranacionalista, incluindo a maioria do exército, acabou por lhe dar apoio e uma dúzia de industriais os marcos de que ele precisava. Em última análise, esta gente é que levou o futuro Führer ao poder, convencida de que iria mandar nele. Passos Coelho contava desde o princípio com a aliança com o CDS, e "subiu" a S. Bento sem nenhuma ajuda do exército e, que se visse, muito pouca do "capital".Quanto a Mussolini, não concorreu sozinho a qualquer eleição e, para meter 35 deputados no Parlamento de 535 lugares, teve de aceitar um mesquinho papel no "bloco da direita", que o desprezava. O terror dos "fáscios de combate", no sentido original da palavra, e a famigerada "marcha sobre Roma" (obviamente ilegal), com a ajuda e a concordância do exército, é que forçaram o rei a nomear o homem primeiro-ministro, com o propósito de sufocar ou atenuar a guerra civil, que se estabelecera em Itália. Passos Coelho nunca andou metido em crimes deste género. O uso da História para "provar" argumentos políticos costuma levar ao fracasso. E o dr. Soares é suficientemente claro, sem estas contorções.
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