Por favor... Não me adoptem!

P. Ricardo Cardoso
In A Defesa

O projecto-lei apresentado pelo Partido Socialista que visava a possibilidade de Co-adopção de crianças por parte de um dos membros do par homossexual ("casais do mesmo sexo" – não lhe chamarei casal porque esse termo só o considero para a vinculação homem com mulher) foi aprovado no passado dia 17 de Maio, passando a ser um dia negro para Portugal, dado que a seguir a esta lei surgirão outras mais graves que, por algum tempo, ficarão na prateleira enquanto a sociedade vai ruminando as novidades até se tornarem aceitáveis ao comum mortal. A formatação das consciências é a principal arma dos políticos de todos os quadrantes, procurando tornar aceitáveis e dignas de crédito todas as medidas, leis e critérios que desejam instituir nas sociedades, à luz de um projecto e de uma nova ordem maquiavélica de supra-estruturas que transcendem a territorialidade nacional.

Segundo as palavras do Papa João Paulo II, na sua Encíclica Centesimus Annus (n.º46), «A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torne oportuno». Mas também acrescenta o Papa que «uma autêntica democracia só é possível num Estado de direito e sobre a base de uma recta concepção da pessoa humana». Assim sendo, qual poderá ser a legitimidade da democracia portuguesa onde os direitos inalienáveis do homem são postos em causa e onde a concepção de pessoa está à mercê de conceitos deformados sobre a pessoa humana, onde o critério é o egoísmo, o prazer e o sentimentalismo desregrado? Na verdade, como diz o grande pensador Goethe «onde me devo abster da moral, deixo de ter poder». Neste sentido, o Parlamento Português deixou de ter jurisdição sobre o seu país desde que pôs em causa toda a moral, tentando-a substituir por uma pseudo-ética resultante dos caprichos e das vontades intestinais de políticos subordinados aos lobbies da minoria. Deste modo, temo que o ideal de democracia esteja ameaçado pelos próprios partidos que a sugam, dando razão ao polémico Vassili Rozanov, o qual afirma que «a democracia é um instrumento com o qual uma minoria bem organizada governa uma maioria desorganizada».

Também tenho noção de que a culpa não pode ser apenas imputada aos deputados, na medida em que cada um deles é resultado da vontade do povo. Muito se poderia divagar sobre esta questão da representação popular em democracia, mas pensemos no essencial: o que leva a maioria do Parlamento Português a votar favoravelmente ou a abster-se face a um projecto-lei sodomista? Será esta a vontade dos portugueses? Perguntem aos portugueses ou façam um referendo e verão como seria arrasadora a resposta de um país que não se revê em políticas que atentam contra o conceito de família, a qual progressivamente é mais mal compreendida e alvo dos maiores ataques por parte de quem deveria alicerçar o Estado naquilo que é a célula base da sociedade: a família (pai , mãe e filhos).

Parece que, na perspectiva dos partidos que têm acento na bancada parlamentar, o verdadeiro interesse nacional não está conforme com o interesse nacional dos cidadãos: os portugueses querem condições para criar os filhos e vê-los prosperar, imploram trabalho, desejam solidariedade, ambicionam justiça nas instâncias sociais e políticas, preferem uma economia que busque os interesses humanos e um progresso que respeite os valores inalienáveis da pessoa humana. Contudo, a meu ver, quase num tom provocador e irresponsável, os nossos políticos entretêm-se no Parlamento a resolver questões de lana caprina.

Parece-me que o conceito de partidos de direita e esquerda desapareceu, porque os ideais com que foram fundados desapareceram…da esquerda (trotskista, marxista-leninista ou socialista) parece apenas continuar a sua política de aproveitamento da vulnerabilidade das desgraças humanas, económicas e sociais das pessoas; e da direita (neo-liberal e social-democrata) parece haver uma confusão entre os interesses soberanos da pessoa humana e os interesses de alguns grupos de pressão.

A questão que se coloca já não é apenas a dos pobres, mas sobretudo a dos inocentes. Sob a terminologia de "inocentes" podemos pensar em todos aqueles que são vítimas de anos de mentira, roubo e usurpação de poderes. Entre os inocentes estão, obviamente, as crianças: não só as que tentam sobreviver nos ventres das mães, bem como aquelas que são vítimas de um Estado que, não resolvendo os problemas das famílias, quer usurpar o papel desta instituição natural (a família) promovendo novas formas de um hipotético acolhimento. Será que o Estado tem o direito de ingerência na família? Que poder tem o Estado para legitimar aquilo que antropologicamente não está correcto? Nunca um Parlamento ou o próprio Estado poderá ser defensor e legislador da Verdade e do Justo, pois o que mais existe na história são casos de injustiça, de mentira e de morte por conta daquilo que o Estado impingiu aos seus cidadãos.

A complexidade antropológica, psicológica, física e genital do ser humano revela, sob todos os aspectos, o que é uma família, o que é um casal e quem pode ter filhos! Só um homem e uma mulher, unidos pelo amor, poderão ser e ter a responsabilidade da paternidade e da maternidade sob as crianças. É óbvio que, à luz da palavra "amor", muitos fundamentam esta fraudulenta lei que foi votada. Todavia, quando se quer um filho a todo o custo e por capricho, desmorona-se toda a possibilidade de amor, pois o amor rivaliza com o egoísmo! Para além disto, sabemos a inconstância da maior parte das relações de pares homossexuais, o que poderá imputar às crianças a vivência de verdadeiros dramas afectivos. A criança precisa de encontrar, nos vários estádios de crescimento, a masculinidade e a feminilidade que completam e complementam em toda a plenitude todo o seu ser, algo impossível quando as suas referências passam a ser demasiadamente contingentes face ao que o pai e a mãe podem assegurar. Por fim, resta-me lembrar que a adopção não é um direito dos pais nem um dever do Estado. A adopção é a possibilidade de encontrar para a criança uma resposta que a ajude a crescer plenamente. Um par homossexual que, à força, quer ter filhos sob a mesma jurisdição não é digno de crédito e de legitimidade para educar e criar uma criança, pois não tem em consideração o bem da criança, mas a busca de satisfações sentimentais e hedonistas.

As forças e os partidos "democráticos" das últimas décadas, em jeito irónico e crítico, acusam a ditadura salazarista de ter feito de Portugal o país dos três "F" (Fátima, Futebol e Fado). Todavia, a letra "F" deu lugar a outra letra, a letra "H", imperando já em Portugal a nova ditadura do Homicídio (no aborto), da Homossexualidade e do Hedonismo. Lamento que a letra tenha mudado, não por convicções políticas, mas porque, ao contrário da letra "F" que unia minimamente o país, a letra "H" está a criar rupturas e chagas que minam o tecido familiar, social e cultural.

Sabemos que temos uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo, que a política não está interessada em atribuir incentivos económicos e sociais às famílias para poderem ter mais filhos, que o aborto passou a ser normal e usado na maior parte das vezes como meio contraceptivo diante da irresponsabilidade dos casais…. Para além de tudo isto, resta saber que lugar tem a criança na nossa sociedade portuguesa? Se continuamos assim, do coração dos que são inocentes de toda esta fantochada já brota o grito de desespero: Por favor…não me adoptem!

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