Portugueses são contra a austeridade, Gaspar, a troika, etc.

Henrique Monteiro
Expresso on-line Quarta feira, 22 de maio de 2013

Não mandei fazer uma sondagem, como a Faculdade de Direito, mas estou tão seguro dos meus resultados como pode estar a melhor empresa de sondagens. Os portugueses são contra a austeridade, contra Gaspar, contra a troika, contra o aumento de impostos, contra a redução de pensões, contra o fim dos subsídios de Natal, contra a eliminação de verbas para a cultura e para o Património, etc., etc.
Em contrapartida, os portugueses são a favor das férias, do bom tempo, da anulação das dívidas, da felicidade, da saúde e da cerveja fresquinha no verão. Sobre isto estamos todos entendidos.
Por isso, e pedindo desculpa pelo muito que repeti esta ideia nos últimos tempos, não ligo muito àquilo que os portugueses são contra ou a favor. Gostava de me centrar nas soluções. Como é que os portugueses acham que se põe fim à austeridade? Como pensam financiar-se se a troika sair? Como evitam perdas brutais no caso de sairmos do Euro? Como, enfim, conseguem fazer crescer a economia de modo a acabar a austeridade e podermos viver felizes, saudáveis e a beber umas boas cervejas fresquinhas no verão? Pois, este é o problema. Perguntas simples, embora estabeleçam uma tendência, dão a entender que há respostas simples. Mas não há.
Assim, se me perguntassem se sou a favor da renegociação do acordo da troika a minha resposta honesta teria de ser: sim, e é o que vai acontecer, porque jamais teremos hipóteses de pagar a dívida monstruosa que o Estado contraiu. Mas, para podermos renegociar sem mais dores insuportáveis tem sido necessário um período de austeridade de modo a que os mercados voltem a ter confiança no país e que as instituições internacionais acreditem na nossa boa-fé. É preciso restaurar o que em Direito se chama fidúcia, a confiança indispensável a qualquer negócio. Por isso a austeridade, por isso Gaspar, por isso a troika.
Não se trata de gostarmos ou não deles, isso é tão irrelevante como gostarmos de óleo de fígado de bacalhau. Trata-se de saber se isso nos fez bem.
E fez-nos? A resposta a isto já é outra conversa. O Governo cometeu inúmeros erros, como o de não entender que ter poder não basta, é preciso ter autoridade, ou, talvez sobretudo, não saber dialogar e chegar a compromissos; além da estupidez que foi não ter começado logo o mandato pelos cortes estruturais na despesa. Porém, tenho a certeza de que os caminhos de rasgar o acordo, de sair do Euro, de renegociar a dívida sem qualquer esforço prévio teriam sido muito piores.
Eis aqui, sem qualquer sondagem, aquilo que verdadeiramente penso. Nunca acreditei, nem acredito, que alguém consiga reformar sem cometer erros; erros graves. Daqui para frente, estes ou outros que os substituam hão de os cometer também. Apenas sei, por isso, que temos de escolher entre males menores, porque o bem nos está vedado por anos de irresponsabilidade. E tudo isto é complexo, como complexa é a situação.

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