Pentecostes

Guilherme d'Oliveira Martins
Voz a Verdade 2013.05.19
Para a cultura portuguesa a festa do Pentecostes tem uma importância especial. As celebrações do Espírito Santo são um sinal do «humanismo universalista», de que falou Jaime Cortesão, e devem ser recordadas como uma exigência de esperança, de liberdade e de igualdade. A coroação de quem não tem poder, uma criança normalmente, a abertura dos Impérios do Espírito Santo e a vivência comunitária de uma refeição de que todos são beneficiários sem exceção (desde a sopa do Espírito Santo à massa sovada, passando pela alcatra e todas as iguarias) são a prefiguração de um tempo de reconciliação e de paz, a que nenhuma sociedade ou pessoa pode renunciar. E, num contexto de dificuldades, como o atual, estes símbolos ganham uma importância acrescida, uma vez que se trata, a um tempo, de dizer que há motivos para mobilizar vontades em torno da justiça, e que a esperança tem de se construir num horizonte em que o sentido comunitário deve ser reforçado, como lógico complemento, da singularidade e da dignidade. Afinal, caridade é cuidado, atenção, entrega e não mero assistencialismo…
Lembramo-nos da memória histórica, desde a influência dos franciscanos espirituais à invocação da Idade do Espírito Santo do monge calabrês Joaquim de Flora, nos tempos do reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel, até à seiscentista «História do Futuro», à «Chave dos Profetas» e ao Quinto Império do Padre António Vieira – tudo isso nos leva à consideração de que o Pentecostes é um momento de significativa importância religiosa, teológica e cultural. A reminiscência dessas festividades antigas ultrapassa em muito a ideia de um acontecimento popular, sem repercussões espirituais. O Espírito procede do Pai e do Filho – e traduz o reconhecimento pleno da dignidade da pessoa humana, como pedra angular da justiça e da paz. Estamos longe de uma recordação de ancestrais movimentos pagãos. O sentido da comunidade e do amor (agapé), a dignidade das pessoas e o igual respeito por todos são mais fortes do que quaisquer elementos folclóricos. Há poucas festividades com um sentido tão profundamente ligado à Verdade e à Vida como a de Pentecostes – e quando lemos as referências culturais a essas tradições, depressa percebemos que estamos no coração da nossa identidade (apesar do Concílio de Trento ter levado para fora – Açores e Brasil – uma festa tão genuína), devendo entender-se que são as pessoas que estão no epicentro dos desígnios e aspirações deste acontecimento.
Como lembrou António Quadros, «há uma poderosa relação desta cerimónia com o Sermão da Montanha» e acrescentava: «o Império do Espírito Santo será também aquele em que nada do que é espiritual, nas sete partes do mundo e ao longo dos milénios, poderá perder-se. Não será um Império por amputação, mas um Império por acréscimo: acréscimo do Espírito de Verdade em todos e cada um dos modos de diálogo do humano com o divino, e de valorização do humano na sua dimensão integral». Essa era, aliás, para o Padre António Vieira a verdadeira «chave dos profetas», não confundível com um projeto político ou de conjuntura, mas como uma aspiração universalista de paz e de justiça. Oiçamos o Padre Joaquim Alves Correia: «sem caridade, não passa a melhor doutrina de um tinir de chocalho ou de badalar de sineta. Com a caridade, tudo feito e tudo ganho: porque a caridade será depois a vida definitiva e em cheio, a vida coroada de alegria, a vida-felicidade, quando a fé já não for precisa, quando a esperança já não tiver objeto (porque se não espera o que se possui» («De Que Espírito Somos»).  As palavras são clarividentes.

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