Claros-escuros de uma existência - Os paradoxos infinitos de Rousseau
Paul Poupard
L'Osservatore Romano, 7 de Maio de 2013
«Querido Jean-Jacques, será que somos realmente tão bons?» titulava na primeira página o diário «La Vie» em 2012, por ocasião dos trezentos anos do nascimento. Quem não recorda o seu célebre aforismo: «A natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e torna-o miserável»? Tema amplo de confronto e debate. Depois de muitos anos, reli a obra polémica do filósofo Jacques Maritain, Trois réformateurs, Luther ou l'avènement du moi, Descartes ou l'incarnation de Rousseau ou le saint de la nature (Paris, Plon, 1925). O «camponês do Garona» não deixa de atirar lanças afiadas, e são numerosas as que atingem a ambiguidade de Jean-Jacques: «A razão de um homem tem uma dúplice tarefa. Por vezes, põe-se ao serviço da paixão, explicando deste modo uma virtuosidade prodigiosa na argumentação sofista; é o Jean-Jacques moralista, estóico, plutárquico, cheio de virtudes, censor dos vícios do século, o Rousseau dos Discours, da Lettre à d'Alembert e do Contrat social. Ao contrário, por vezes, a razão como uma uma lâmpada ineficaz, assiste às inebriações dos maus desejos, distingue com perspicácia a sua malícia; mas, por sua vez, evita intervir, e estando concentrado no espectáculo, ela, na realidade, aumenta a sua atracção proporcionado-lhe um certo sabor de perversidade inteligente e artística. Pois cabe ao artista, conforme as palavras de Aristóteles, permanecer artista quando falha querendo pecar. É o indolente Jean-Jacques, o verdadeiro Jean-Jacques, que se abandona ao prazer, que se dá conta de praticar o mal e que mantém os olhos levantados em direcção da imagem do bem e que se apraz ao mesmo tempo no bem que ela ama sem o fazer o no mal que pratica sem o odiar. O homem de Rousseau é o anjo de Descartes que se torna malvado. Rousseau introduziu na literatura e na realidade da vida este tipo de inocente, que é simplesmente a derrota mental de uma humanidade que se abandona. É como dizer que não existe em Rousseau qualquer rectificação da vontade, o que origina as suas acções malignas e a sua pouca envergadura moral. Devido a esta inaptidão perante o real explicam-se essencialmente o abandono dos seus cinco filhos, as suas crises de paixão, as interrupções de amizade, os seus frenesis tímidos, o narcisismo equívoco dos seus sentimentos, todas as vergonhas e todas as misérias da sua vida. Em síntese, ele é um exemplo para a humanidade, um mestre de virtude, um reformador dos costumes, e é neste momento específico que o futuro autor da Émile abandona o seu terceiro filho. Rousseau tem um temperamento religioso. Ele manipula o Evangelho, o cristianismo, corrompendo-os.
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