A intuição pura, caminho para a essência dos mundos

José Luís Nunes Martins
i-online, 2013-05-18
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As sociedades recentes têm sido construídas numa lógica de provas, evidências e certezas. Mas, a verdade não se deixa apanhar aos pedaços
A intuição tem vários significados que, na verdade, são apenas aproximações que se completam para formar uma unidade pura e íntegra.
O primeiro sentido comum da intuição refere-se à entrada imediata no entendimento de uma qualquer realidade, sem que tenha passado por uma explicação ou demonstração. Acede-se ao saber de forma direta. É, pois, necessariamente pura, na medida em que não é contaminada por nada que seja estranho ao núcleo essencial. Intuir é ver dentro. Uma agudeza que penetra até à essência. Assim se descobre nos mundos as similitudes e as diferenças, as causalidades subtis... assim se chega ao eu e a Deus.
Um segundo sentido é o de uma receptividade apurada, a intuição é uma perfeição da sensibilidade. Quem é intuitivo é extremamente impressionável. É puro, na medida em que está completamente receptivo e atento ao que se lhe apresenta. Sentindo e admirando cada detalhe.
Por último, a intuição é também a faculdade criativa, o dom da criação. Quem intui é capaz de ver além, de antecipar e de ser agente da mudança que prevê. Os criadores chegam ao futuro antes dos outros e, mais, assumem que estas transformações dependem da sua vontade, determinação e trabalho, como uma necessidade de ser. A intuição é a iluminação íntima a que muitos chamam inspiração.
O mundo depende muito destes que são capazes de ver para além das aparências, dos que estão atentos aos detalhes e sentem o que apenas murmura, dos que são protagonistas das mudanças que permitem que o mundo se renove de belezas à sua passagem. Também é verdade que, no extremo oposto, muitos males vieram ao mundo por intuições de gente que sonha o que na verdade são pesadelos. A intuição é crítica, na medida exata de que que torna possível o impossível... para o bem e, infelizmente, também para o mal.
O amor não se deduz. Por tudo aquilo que se for capaz de ver para dentro do outro; pelas imensas alegrias que é dado experimentar a quem consegue sentir cada detalhe; por tudo quanto, de forma fecunda, faz sonhar e acontecer... não há amor sem intuição.
Há quem seja capaz de estragar um mero beijo porque se põe a pensar no que está a fazer.
A verdadeira alegria é um pedaço de vida pura, uma migalha da felicidade que subjaz a este mundo, uma forma simples de amar a vida.
A mão que se abre procura sentir, quando toca não deve fechar-se, ainda que queira agarrar o que a agrada... só uma mão estendida pode receber do mundo o melhor que existe, afinal só uma mão aberta se pode transformar em carícia.
É a intuição que ensina a sentir a mão que existe no vento.
É pela intuição que se torna possível elevarmo-nos acima dos tempos e dos espaços, abandonar as banalidades do mundo e sermos, para nós mesmos, o mundo em que vivemos, amamos e somos felizes... afinal, a alegria profunda do amor é o sinal de que ele vale a pena, qualquer pena... por maior e mais dolorosa que seja.
A intuição rareia e pouco se pratica. As sociedades recentes têm sido construídas numa lógica de provas, evidências e certezas. Mas, a verdade não se deixa apanhar aos pedaços. Menos ainda se deixa assim aprisionar por quem se julga acima dela. É urgente educar, pelo exemplo, os mais jovens para que saibam, que é possível ser-se responsável e louco, ser-se profundamente livre e feliz, apesar de todas as pobrezas e tristezas...
Toda a vida humana se assemelha a alguém que está sentado na rua, com a esperança de que o amor lhe chegue qual esmola... que, enfim, algum dia, alguém abra uma porta e diga: levanta-te e entra.
Uma busca é uma espera do princípio ao fim.
E uma simples troca de olhares basta para que se chegue a saber tudo.

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