Os fins não justificam os meios

Alexandre Homem Cristo
i-online 20 Maio 2013 - 07:00
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Estas greves são legais e legítimas mas, fica claro, são também um boicote ao trabalho de alunos, pais e professores

Várias organizações sindicais entregaram um pré-aviso de greve para os quatro dias de avaliação aos alunos dos 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos que têm provas nacionais e para o primeiro dia de exames nacionais. Deste modo, os sindicatos colocaram em risco não somente a realização das provas e dos exames, como o lançamento das notas dos alunos para que estes possam apresentar-se a exame. Fazem-no porque se opõem à mobilidade especial. Isto é, porque, nas suas próprias palavras, está em causa a defesa da Escola Pública.
É habitual os interesses corporativos, em Portugal, não se assumirem. Repare-se que, no nosso país, as greves nunca se fazem em nome de coisas mundanas. Fazem-se em nome de grandes causas, como a liberdade, a equidade, a justiça social ou a igualdade. O mesmo acontece com os professores: não é pelos seus próprios interesses que lutam, é pela defesa da Escola Pública. Mas será que defender os interesses dos professores corresponde a defender os interesses dos alunos? Não, esses interesses nem sempre são coincidentes.
A situação actual ilustra o contraste. Em nome da defesa da Escola Pública, os sindicatos de professores fizeram dos alunos seus reféns, para fortalecer a sua posição na negociação sindical contra a mobilidade especial. Podemos concordar ou discordar da razão dos seus motivos, mas podemos também ter duas certezas: irão prejudicar, acima de tudo, os alunos e, como tal, não estarão, por certo, a defender a Escola Pública.

Estas greves são legais e legítimas mas, fica claro, são também um boicote ao trabalho de alunos, pais e professores. Ou seja, um boicote a toda a comunidade educativa que, de resto, já se manifestou. A CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais) lamentou a decisão dos sindicatos, apontando ao óbvio: "os primeiros visados com esta acção são os jovens". E a CNIPE (Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação) concorda: "vai atingir os nossos filhos quando há outras formas de protestarem".
Estas evidências não atenuaram a determinação sindical. Mário Nogueira, Secretário-Geral da FENPROF, esclareceu que "vivemos uma situação excepcional que exige acções excepcionais". Dito de outro modo, descobrimos que, aos seus olhos, os fins justificam os meios. Mesmo quando os fins são interesses corporativos e os meios são os alunos e, portanto, o centro e a razão de existir do sistema educativo. Ficamos, de facto, esclarecidos.

Neste momento, a única dúvida que subsiste é se será possível evitar que milhares de alunos fiquem prejudicados. Tudo depende da negociação entre sindicatos e Governo. Mas o radicalismo dominante no discurso sindical, nomeadamente na FENPROF, faz temer o pior. Os avisos foram explícitos. "Com este governo e estas políticas não há possibilidade de consenso, mas apenas necessidade de profunda ruptura" exclamou Mário Nogueira, a 8 Maio 2013, em Coimbra. De resto, para a FENPROF, "demitir o Governo" é um "objectivo imediato" (cf. Resolução sobre a Acção Reivindicativa, 4 de Maio 2013). Um entendimento parece, portanto, improvável.

Tudo isto é inequivocamente lamentável. Mas, pelo menos, que sirva de lição e fique na memória. Os que tantas vezes usam os alunos, para dar força aos seus combates, desta vez estão mesmo dispostos a sacrificá-los. Sim, percebemos a mensagem. Mas não, quando se joga com o presente e o futuro dos nossos jovens, não a podemos aceitar.

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