quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Família Caldas: “Cinco filhos é uma loucura? É, mas vale a pena”

SOL     02.11.16

Comecemos pelas contas de somar, que no caso de Rita pedem a ajuda de uma calculadora. Se o Zé Maria tem sete anos e a seguir a ele vieram quatro irmãos quase de seguida, significa que esta mãe passou 45 meses grávida, ou seja, quase quatro anos. “A sério? Nunca tinha pensado nisso”, admite, sem parecer dar muita atenção aos números que deixariam qualquer um com cara de espanto.
Talvez no fim de semana tenha tirado um pouco de tempo para refletir, mas a uma quinta-feira ainda sem direito a luz do dia, as preocupações são outras. “Duarte, acaba lá o leite”, pede Rita, enquanto tenta enfiar uns teimosos sapatos nos pés da mais pequena dos cinco. “Não se deixe enganar por este ar, é uma terrorista”, conta, com a memória bem recente de dois minutos de distração que resultaram numa Carmo a nadar em gel de banho que a própria espalhou no hall de entrada.
Peripécias como estas são comuns, assim como as birras. “Essas não me assustam, com elas posso eu bem. Pior vão ser as crises existenciais da adolescência.” Sim, até porque, inevitavelmente, os cinco vão passar pelas mesmas fases ao mesmo tempo. Senão vejamos: Zé Maria, o mais velho, tem sete anos; Isabel tem seis; Duarte, cinco; Pedro, três; e Carmo, um. “Já pensámos criar um fundo, nem que seja de 50 euros por mês, para a altura da universidade”, admite, misturando o ar de gozo com um sorriso nervoso de verdadeira preocupação.
Mas, para já, a coisa faz-se e sem parecer difícil. João, técnico de segurança na área da construção civil, e Rita, farmacêutica, coordenaram horários no trabalho para que, salvo raras exceções, o dia comece e acabe em equipa. “Acordamos às 6h30 e às 7h50 temos de estar a sair de casa”, conta João, cuja ideia inicial, quando há dez anos casou com Rita, era ter apenas um filho. “As coisas foram acontecendo e olhe, agora somos sete cá em casa.”
Fugir à regra Famílias como a Caldas são caso raro em Portugal. Os últimos dados oficiais disponíveis são os dos Censos 2011 e davam conta de que, em dez anos, Portugal tinha perdido 59 609 famílias numerosas – aquelas com três ou mais filhos. Desde 2011, os dados disponíveis são apenas projeções, mas suficientes para que a Associação de Famílias Numerosas se mostre cética quanto a uma mudança de cenário. 
Para esta descida no número de filhos por casal, a presidente da associação, Ana Cid, tem duas explicações. “Não há como fugir à falta de apoios”, lembra, dando como exemplo as poucas vagas nas creches ou os apoios à habitação, que se ficam apenas para os mais jovens. Mas para Ana, a questão cultural tem vindo a ganhar peso, ainda que sustentada pelas políticas dos últimos governos. “Acredito piamente que a política faz a cultura. Veja-se, por exemplo, que sempre que o governo anuncia novas medidas de apoio às famílias, mesmo que não se concretizem, a natalidade cresce nesse ano.” Daí que, para a responsável, a decisão de ter poucos filhos é mais uma inevitabilidade do que uma vontade. 
Um estudo recente no qual foi testada a vontade de constituir família prova que, idealmente, cada casal português teria 2,1 filhos, face aos 1,3 que realmente tem.

Contas à vida Apesar de Zé Maria acreditar que os quatro euros que tem no mealheiro fazem uma família rica, a resposta da mãe não o deixa sonhar muito alto. “Isso é que era bom, filho.” 
Apesar de terem bons salários, Rita e João sabem que não se podem esticar. No T3 onde vivem há um quarto para os rapazes e outro para as raparigas e a roupa passa pelos irmãos, que já sabem que não vale a pena pedirem para ir ao Festival Panda ou ao Oceanário. “Vamos antes ao Aquário Vasco da Gama, que é mais barato, ou então passear para o jardim ou brincar no parque”, diz João, recordando a última tentativa de mostrar aos miúdos o que é andar de elétrico em Lisboa. “Cada bilhete custa 2,85 euros, sabia? Fica mais barato ir de táxi.”
Das contas que sabe de cor, Rita aponta para uns 700 euros gastos no colégio e quase 400 euros em compras de supermercado, quase sempre feitas a horas tardias e de trólei na mão. Para poupar na mensalidade, todos os dias prepara o almoço, o lanche da manhã e o lanche da tarde dos cinco filhos. “Não era nada organizada antes de me casar, mas tive de passar a ser.” É por isso que prefere tomar banho à noite para poupar tempo de manhã e põe o despertador de maneira a ser a primeira a acordar. 
Apesar de, no grupo de amigos, serem o casal com mais filhos, acreditam que se está a voltar às famílias mais alargadas. “Parece uma moda”, refere Rita. Mesmo assim, não escapam aos olhares de terceiros, num misto de simpatia e espanto. “Já me deram os parabéns, mas também já me disseram: ‘Já chega, não?’” Pedro prefere brincar com a situação. “Eu digo sempre que são primos.”
Funcionam “em rebanho”, como diz Rita, e, por isso, o tempo a dois fica comprometido. “Cinema? Acho que o último filme que vi foi ‘Os Miseráveis’.” A última adaptação desta obra ao grande ecrã aconteceu há quatro anos mas, por exemplo, o último fim de semana a dois aconteceu quando ainda não havia filhos. “Mas vamos agora em novembro a Mafra, estou no limite do cansaço”, admite Rita, na única vez que a vemos fazer aquilo que se aproxima de uma queixa. “Ter cinco filhos é uma loucura? Claro que é, mas é uma loucura que vale a pena”, garante. Mais não seja nos dias do Pai e da Mãe. “Parece Natal”, brinca João, fazendo as contas aos pisa-papéis e aos copos para pôr canetas que os miúdos trazem do colégio.
À inevitável pergunta ‘estão a pensar ficar por aqui?’, João tem um valente “sim” preparado para dar de resposta. Já Rita levanta a cabeça da gaveta de onde vai tirando os bibes para distribuir pelos mais novos e admite, quase que em segredo: “Bem sei que ele tem razão, mas por mim continuava.”
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