sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A importância da religião no espaço público

SOFIA REIMÃO   OBSERVADOR   03.11.16

Mesmo nas sociedades amplamente secularizadas, a religião não só está presente como não fragilizou a sua relevância, quer no espaço público político ou cultural, quer na condução da vida pessoal.


O Cardeal-Patriarca de Lisboa tomou a iniciativa de convocar as Associações de Profissionais Católicos da Diocese de Lisboa para um Congresso, subordinado ao tema “Cuidar da Casa Comum”, que terá lugar no próximo dia 5 de Novembro, na Universidade Católica, em Lisboa, consciente da importância da sua participação quer na vida da Igreja, quer na esfera pública e política.
A presença activa das Colectividades Religiosas e a sua relevância na sociedade continuam, hoje, muito actuais, estando, de facto, em questão a tese, durante muito tempo indiscutível, da existência de uma estreita conexão entre a modernização da sociedade e a secularização da população, tese que encontra, entre os sociólogos, cada vez menos adeptos, como refere Hans Joas (1948).
Mesmo nas sociedades amplamente secularizadas, a religião não só está presente como não fragilizou a sua relevância, quer no espaço público político ou cultural, quer na condução da própria vida pessoal. Perde, assim, cada vez mais terreno a certeza secularista de que, no decurso de uma modernização acelerada, a religião desaparecerá à escala mundial. E, de facto, as Colectividades Religiosas, independentemente do seu peso quantitativo, não só não perdem o seu lugar na vida das sociedades secularizadas, como até ganham importância no interior do espaço público ao assumirem, cada vez mais, o papel de intérpretes num contexto social pluralista, onde os conflitos de valores necessitam de uma regulação política, apoiada em intuições morais correctas, como salienta o filósofo alemão Jürgen Habermas (1929), um dos mais importantes filósofos sociais da actualidade.
É de referir o aparecimento de movimentos associativos católicos, já no século XIX, em ordem a responder aos problemas existentes no desenrolar da conjuntura sociocultural europeia de então. Esta inspiração vinda do exterior da Igreja e, nomeadamente, de toda a movimentação gerada em torno do Concílio Vaticano I, realizado entre 1869-1870, acalentou determinados movimentos de associativismo que vieram a desempenhar, tanto no estrangeiro, como em Portugal, um importante papel. De facto, na segunda metade do século XIX, época de profunda renovação para a Igreja Católica, quer em Portugal, quer no resto da Europa, surgiram as primeiras intervenções organizadas dos leigos, com práticas cada vez mais visíveis no interior da sociedade, em geral, e da sociedade portuguesa, em particular.
Reconhecendo a extrema importância, do ponto de vista pastoral, destes movimentos, a Igreja Católica procurou desenvolver o seu magistério activo, contando, cada vez mais, com a participação dos leigos, participação bem atestada, a partir de então, na criação das várias Associações de Profissionais Católicos; são constituídas por cidadãos religiosamente comprometidos e activos, organizados em comunidades de fé e de razão (razão que, como refere Bento XVI, é “garante de fé, protegendo a religião do deslizamento para loucas fantasias e o fanatismo”), com o objectivo de intervirem em diversos níveis de funcionamento da sociedade, na busca de respostas para as necessidades morais, culturais e existenciais dos cidadãos.
A mais antiga das Associações de Profissionais Católicos do País é a Associação dos Médicos Católicos Portugueses que, a nível europeu, é também uma das mais antigas associações de médicos católicos; foi constituída, em 1915, por iniciativa do então Bispo do Porto D. António Barroso, tendo como finalidade congregar os profissionais de medicina que, como católicos, desejavam intervir na sociedade portuguesa do século XX, através do seu testemunho e das suas práticas marcadas pelo Evangelho. Esta Associação que, no ano passado, celebrou os seus cem anos de existência, continua activa, funcionando, através dos seus vários núcleos, como instância de participação e de intervenção na sociedade portuguesa, colaborando, deste modo, no “cuidar da Casa Comum”.
Presidente do Núcleo de Lisboa da Associação dos Médicos Católicos Portugueses
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