Incompatível

Joana Petiz
DN 2016.04.03

Se as regras que o PS quer fazer passar já estivessem em vigor, talvez mais de um quarto dos deputados não estivessem sentados na Assembleia. Ninguém os expulsaria, claro, mas, perante a escolha entre a carreira - e a remuneração - como advogados com negócios ligados ao setor financeiro ou segurador e o lugar no Parlamento, muitos não hesitariam em escolher pelo seguro. O PS não quer os deputados a trabalhar em instituições financeiras e quer fazer depender da aprovação da Assembleia da República a possibilidade de um ex-governante voltar ao privado antes de fazer três anos de ter saído do executivo. Há anos que ouvimos que há demasiados políticos de carreira sentados na Assembleia e que isso não ajuda o país. Batemo-nos pela importância de captar pessoas de valor para assumirem cargos de relevo no governo e na sociedade. Este tipo de regras só vai afastá-los ainda mais dos lugares onde podem fazer a diferença. Isto ultrapassa as regras da transparência, do bom senso, da ética, da responsabilidade - princípios que desejavelmente são observados sempre que está em causa a relação com o poder. Saber que ao entrar na sala do Parlamento quase todas as portas se fecharão atrás afastará demasiadas pessoas de qualidade de lugares onde elas são mais precisas. Ter a consciência de que integrando um governo ou sendo dele consultor nos processos mais importantes, como privatizações, essas portas permanecerão fechadas por mais três anos só piora a situação. Se queremos deputados que se dediquem em exclusivo a falar por aqueles que os elegeram, a legislar no sentido do que espera quem votou neles - uma situação que tem méritos, sem dúvida -, então que se decida nesse sentido, com clareza. O que não podemos é dar-nos ao luxo de afastar ainda mais as pessoas de qualidade da discussão política e da vida pública do país. Isso sim, é incompatível com as nossas necessidades.
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