quarta-feira, 27 de abril de 2016

A tua cidade

João Taborda da Gama
DN 20160425

Uma coisa que o fazia decidir casar-se com aquela mulher que conhecia mal ao fim de um mês é que conhecia bem as outras mulheres, e há bem mais de um mês

Se não contarmos uma conversão tardia ao catolicismo, sou pouco dado a fenómenos do além, exceto numa coisa, cidades. Cidades na medida em que pode haver uma coisa qualquer que liga certas pessoas a certas cidades, a cidades que não são as suas. Ou, se calhar, às cidades que são as suas se tivessem nascido no local cosmicamente perfeito. Tipo cidadão honorário por via de chacras e reencarnação, vidas passadas, cartas lançadas num programa da manhã. É uma coisa que se sente e sabe-se logo. No American Pie, uma amiga pergunta a outra se já teve um orgasmo, a amiga responde-lhe que acha que sim, e a outra diz-lhe que se acha é porque não teve. Com as cidades é assim, sabe-se logo, não se acha. No meu caso as cidades são duas, Nova Iorque e Luanda, sem qualquer dúvida, desde os primeiros segundos. (Sim, Luanda). Há muito mais em comum entre as duas - Nova Iorque e Luanda - do que parece, mas isso fica para depois, não cabe aqui hoje.
A questão por trás de tudo (isto) é a da finitude do tempo e a da infinitude do espaço, se devemos e até quando continuar a procurar as nossas cidades. Vou tentar explicar.
Uma filha minha constatou um dia, em pânico, que era impossível conhecer as cidades todas do mundo. Na altura não sei o que lhe respondi, talvez que sim, que eram muitas e que não se preocupasse demasiado com isso. Mas a resposta verdadeira é outra, é que sim, que é uma merda, e que por mais que corras não vai dar, e que todos os dias vais pensar nisso, por mais que te digam que não importa e que o que interessa é estares bem no sítio onde estás e contigo própria, porque eles fingem que não percebem o que tu estás a dizer, ou não percebem mesmo, o que ainda é pior. Não vale a pena, deixa. E depois vais perceber que não é só cidades, é pessoas, é livros, é filmes, é música, é receitas. Mas talvez encontres as tuas cidades e quando as encontrares a ansiedade diminua. Talvez.
Mas os tempos das coisas são diferentes. Há coisas que não precisam de tempo, outras precisam de tempo. Mas mesmo as coisas que não precisam de tempo não precisam de tempo porque o tempo já foi gasto noutras coisas. Por exemplo, quando o R. anunciou que se ia casar ao fim de um mês de conhecer a mulher perguntaram-lhe se já a conheceria o suficiente, se não estaria a precipitar--se. O R. respondeu que era verdade, que a conhecia mal - mas que havia uma coisa que o fazia decidir casar-se com aquela mulher que conhecia mal ao fim de um mês, é que conhecia bem as outras mulheres, e há bem mais de um mês.
E com as cidades é assim, para sabermos quais são as nossas, às vezes é preciso perder tempo com as outras. Talvez tenha sido esse o sentido de ter passado mais de dez dias de vida em Helsínquia. Talvez só se possa gostar de Luanda nos primeiros segundos depois de sofrer Helsínquia durante dez dias. Talvez.
Depois a dúvida é outra, é saber se se deve aprofundar ou expandir. A escolha, sempre a escolha. É tão impossível uma coisa quanto a outra - conhecer todas as ruas de Lisboa é tão impossível como conhecer todas as cidades do mundo; não parece mas é.
E depois um dilema adicional, nas cidades, é saber o que repetir, voltar ou não aos mesmos sítios. Não é só o problema do voltar onde se foi feliz, ou onde se foi infeliz, mas o dilema de se trocar o certo pelo incerto, ou o contrário - reviver ou explorar? Em Nova Iorque, na Igreja de São Francisco Xavier há uma imagem de Nossa Senhora de Fátima (Antonin Scalia, juiz do Supremo Tribunal norte-americano recentemente falecido, frequentou o liceu que pertence a esta paróquia). Um dia ao passar pela imagem perguntei como tinha ido lá parar. Disseram-me que foram as mães portuguesas que ofereceram, porque tinham os filhos na guerra. Qual guerra, perguntei. A guerra, responderam. Terá sido a segunda? A do Vietname? A colonial? É irrelevante, são mães e filhos ensombrados por uma qualquer guerra. "But Lord there"s gotta be another way that"s better than war", rezaram aí essas mães uma qualquer versão desta linha de Bruce Springsteen.
Estou em Nova Iorque. Amanhã é domingo, dia de missa, podemos voltar a São Francisco Xavier e ver a Nossa Senhora das mães, e mostrar à L. uma igreja católica progressista, que acolhe todos os tipos de famílias, sem julgar, com base no amor. Mas também podemos ir a outro lado e aprender uma lição ainda melhor, ou não aprender lição nenhuma. E depois passear no parque e falar um bocadinho sobre o 25 de Abril que é já amanhã, sem ser naquele tom estupidificante dos bons contra os maus que é a versão tradicional escolar, passando por cima de todas as nuances da coisa, sobretudo da mais importante que é a de perceber que não houve uma revolução mais cedo porque a esmagadora maioria das pessoas está sempre confortável no seu medo, tranquila na sua cidade. É que só faz revoluções quem nunca se cansa de procurar a sua cidade.
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