A importância de se ser rural

Agora pensamos juntos/ 17 Apr 2016 / Tomás Roquette Tenreiro

Nos tempos que correm ganha popularidade um discurso fácil e aparentemente amigo do mundo rural. Um discurso amigo do ambiente e dos espaços verdes, amigo das gentes de um mundo que é muitas vezes lembrado com carinho como se do passado se tratasse mas que na verdade faz tanto parte do presente como tantas outras realidades. Um discurso de quem gosta de ir ao campo ao fim-de-semana, de quem gosta de ocasionalmente aparecer e desfrutar mas que é no fundo um discurso carente de consideração pelo que custa manter e pelo sacrifício diário com que o mundo rural vive nos dias de hoje.
Mas que mundo é este? E quem é esta gente que o país apesar do discurso fácil e aparentemente interessado tantas vezes esquece?
Apesar das diferenças que o homem rural português apresenta, de norte a sul existe algo bem comum que merece o nosso reconhecimento e respeito. Ser-se rural é ser-se mais autêntico. É viver sob um estado mais puro da natureza humana, mais perto da criação e mais perto da realidade bruta que é vida. O homem rural é quem lá está diariamente de mangas arregaçadas moldando a origem das coisas. A origem do que nos chega todos os dias e que tomamos tantas vezes por garantido. Mas que não é! Quando o sol se levanta, levanta-se para todos. Mas no campo ele brilha mais cedo! No campo a vida começa mais cedo! Quando o país acorda, já o homem rural leva horas de trabalho para que nada falte à nossas mesas. Para que em mais uma manhã, banal e monótona, possamos tomar por garantido o que não é.
Num país demograficamente desequilibrado em que alguns distritos apresentam uma densidade populacional inferior a 2% da densidade de outros, o abandono de muitas destas zonas é uma realidade tão real quanto esquecida. Uma realidade de profundas consequências sociais e económicas não só para essas regiões mas principalmente para todo o território nacional.
Uma distribuição demográfica mais equilibrada é fundamental para uma consolidação do estado social nacional, para uma maior preservação da riqueza cultural e histórica portuguesa mas também para a manutenção de muitos dos motores produtivos de indiscutível impacto económico local e nacional. A meu ver, Portugal deve procurar hoje mais que nunca preservar minorias fundamentais com respeito e educação. Minorias que merecem mais e melhores oportunidades. Minorias que ao receber, bem mais darão em troca.
A realidade de alguns distritos é muitas vezes esquecida. Falo de distritos como o distrito de Bragança, como o distrito de Portalegre, de Évora ou de Beja. Todos eles com menos de 3% da densidade populacional dos principais distritos mais urbanizados do nosso país. São somente números para muitos mas que na verdade representam uma realidade diária de abandono e de difíceis consequências para muitas destas populações. São serviços que perdem a capacidade de resposta, é um estado cultural que se distancia, é uma realidade que carece das mesmas oportunidades e mais que tudo são vidas sem as quais não viveríamos que perdem o nosso respeito.
As cidades vão crescendo, perdendo equilíbrio e tornando-se aglomerados da mesma gente. Gente que vive atrás de ecrãs, contando o tempo em vez de fazer o tempo contar. Vidas urbanas depressivas e desprovidas de experiências reais, de experiências em que a genuinidade humana coexista com a autenticidade deste mundo. São vidas de conforto mas carentes de significado. Um país que não distribui uniformemente as suas populações caminha para a perda de diversidade, para a extinção de muito do seu património humano e principalmente para a perda de qualidade tanto de vidas urbanas que vivem exaustas num ambiente lotado como de vidas rurais que são cada vez mais esquecidas e abandonadas.
É portanto tão essencial a manutenção das pessoas nos espaços rurais como o impulso do êxodo urbano. Para tal, o investimento deve procurar fugir dos principais centros urbanos, gerando oportunidades no interior e criando espaço para que mais possam povoar com qualidade o mundo rural.
Como liberal que sou, vejo o investimento privado como principal motor da economia e como suporte dos serviços públicos que todos gostamos de ter. Mas reforçar o investimento no sector empresarial rural requer especiais considerações pois a realidade rural é feita de particularidades e como tal o seu desenvolvimento exige outros cuidados. Existem à primeira vista duas questões que me parecem absolutamente condicionantes. Uma é a elevada dependência de combustíveis fósseis para a manutenção de actividades profissionais e outra a excessiva carga fiscal e legislativa sobre empresas que lidam com necessidades laborais sazonais em que a contratação é temporária e como tal realizada sobre outros modelos. Muitas vezes a necessidade de mão de obra chega a variar diariamente e consequentemente a excessiva legislação laboral bem como a sufocante carga fiscal, que acaba sempre incidindo sobre quem contrata, leva a que muitos contratos sejam feitos ou de forma ilegal ou que simplesmente não se cheguem a realizar. É preciso liberalizar esta realidade para que ganhe outra flexibilidade e outra dinâmica.
A dependência energética de combustíveis fósseis é outra particularidade que me parece absolutamente condicionante. Esta ultrapassa o nível produtivo pois o mundo rural vive numa escala diferente em que as distâncias e os meios são outros, sendo a mobilidade e o transporte fortemente condicionados pelo preço dos combustíveis. Esta é uma realidade de impacto não apenas na vida pessoal das populações mas também e principalmente no sector empresarial em que qualquer transporte, seja de mercadoria ou pessoas, revela custos insustentáveis que tantas vezes inviabilizam actividades. A necessidade de encontrar alternativas energéticas e a redução do preço dos combustíveis fósseis são prioridades para a criação de melhores condições futuras para as empresas rurais. E nos espaços rurais, a criação de tais condições para que esse investimento possa ser realizado é fulcral, pois nunca uma realidade improdutiva poderá ser atractiva para a fixação das suas populações.
São inúmeras as vantagens resultantes de um investimento sustentável no mundo rural. A segurança das populações rurais é somente uma delas. Uma “segurança” que tantas vezes está nos dias de hoje entregue à sua sorte, fruto da falta de meios e de capacidade de resposta das forças de segurança pública locais, fruto do isolamento que propicia o crime e da falta de leis verdadeiramente protectoras de um cidadão rural que levam à perda da capacidade de autodefesa e protecção dos seus bens em tantas situações. Mas é somente uma delas! Porque surgem inerentes a uma população uniformemente distribuída um conjunto de vantagens que ultrapassam o nível local.
A educação é igualmente uma peça chave no combate ao êxodo rural na medida em que populações com acesso a educação de qualidade serão populações mais capazes, mais sustentáveis e consequentemente mais resilientes. Mas educar não chega, é necessário dar continuidade a esse investimento e apoiando o tecido económico rural privado garantir assim melhores condições para a criação e sobrevivência de empresas rurais, actuais e com espaço no mercado interno e externo. Neste sentido assumo que a actualidade do mundo rural é estrutural para a construção de um espaço que sabendo preservar as suas tradições afirmando a sua identidade cultural, saiba também acompanhar os tempos e adaptar-se às exigências dos dias de hoje. O homem rural iletrado, pouco ou nada informado e limitado pelas suas competências fará então parte do passado.
Já existem em Portugal muitos exemplos de que o perfil rural se tem alterado. Empresários de visão futura, que praticam gestão estratégica, que encaram os seus negócios numa perspectiva de longo prazo, que se preocupam em preservar e optimizar a eficiência no uso de recursos, empresários de consciência social que geram oportunidades para vidas dignas e de maior estabilidade e também empregados mais versáteis, mais capazes e com uma noção cada vez mais ampla e aberta à diferença e à inovação. Existem bastantes provas dadas no turismo e na restauração, em empresas agrícolas, na indústria e nos serviços… mas acredito que muito mais se poderá fazer. No entanto, isto parte também da consciência individual de cada um. O homem rural do futuro tem de ser um homem capaz de falar outros idiomas, um homem capaz de levar o melhor de Portugal para mercados exóticos, um homem de perfil polivalente, capaz de receber e dar a conhecer a quem nos visita o nosso lado mais tradicional, com todas as vantagens que a inovação e o progresso permitem. Mas deve ser também um homem profundamente ligado às gerações mais antigas, capaz de as compreender e com respeito ajudar nas transições exigidas por novos tempos.
Portugal tem capacidade para a promoção deste perfil. A dimensão do país, a proximidade terra-mar, o acesso às cidades e a extensa rede rodoviária são características que devem ser exploradas para combater o isolamento e permitir que o homem rural seja um homem de perspectiva cada vez mais extensa.
Acredito e vejo pelo exemplo de outros países europeus e bem mais desenvolvidos por sinal, a importância que esta questão tem para a estabilidade social e económica dos territórios. Uma preservação do mundo rural e das suas populações baseada num modelo de investimento e educação é a garantia de um país mais rico em diversidade cultural, mais capaz de preservar, de produzir e principalmente onde se viverá melhor nos próximos anos.
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