Costa é óptimo. E isso é péssimo

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 19/04/2016 - 00:10

Sendo António Costa um mestre do improviso sem especial talento para o planeamento e um político que reage bem melhor do que age, ele é um homem com qualidades para o tempo errado.

Sempre admirei o talento político de António Costa. Escrevi em tempos que ele e Pedro Passos Coelho eram os melhores políticos da sua geração e não mudei de opinião até agora, mesmo que nestes tempos extremados cada lado tenha tendência para ver no outro a encarnação de Belzebu. Se erguermos a cabeça um pouco acima da espuma dos dias e abandonarmos por um momento o facciosismo mais trauliteiro, facilmente nos deparamos com um conjunto de características que ambos ostentam (persistência, resistência, sangue frio, determinação, carisma, capacidade de liderança) que são bem mais raras do que parecem.
Mesmo de uma perspectiva de direita, que é a minha, é impossível olhar para António Costa e não admirar o seu engenho e as suas capacidades políticas, bem demonstradas no trabalho em Lisboa, na forma como defenestrou António José Seguro e liderou as negociações pós-legislativas para assaltar o poder, na solidez que uma coligação colada a cuspo tem, apesar de tudo, vindo a demonstrar, ou simplesmente no modo como apontou a porta de saída a João Soares, aplicando-lhe para tal um raspanete dos tempos da palmatória. António Costa é bom. Mais do que bom, ele é óptimo – e é por ser óptimo que a sua governação corre o risco de vir a ser péssima para o país.
A razão é esta: quando se está errado, é muito mais grave ser-se competente do que incompetente. Um político competente com uma visão totalmente equivocada pode enterrar-nos muito fundo, e temo cada vez mais que António Costa seja esse tipo de político. Ele é um líder de mão cheia, só que as suas ideias para o país são péssimas; tem todas as qualidade políticas certas, só que ao serviço de uma estratégia de keynesianismo de casino (gastar o dinheiro que não temos cruzando os dedos para que saia jackpot) que só pode correr mal, porque ainda há diferenças entre um bom político e um santo milagreiro. Costa é como aqueles jogadores de futebol que inventam fintas incríveis dentro de uma cabina telefónica mas quando chega a altura de rematar à baliza fazem autogolo. Costa é o recordista mundial dos 100 metros a correr para trás.
Os números que reflectem a era deste regoverno começam aos poucos a pingar, e com eles uma revisão do crescimento em baixa que coloca em causa todas as contas de Centeno e todo o paleio anti-austeritário de Costa. Por mais que o primeiro-ministro se esforce por fintar toda a gente, dificilmente conseguirá fintar a realidade, essa palavra tão vilipendiada por quem prefere viver num mundo de ficção.
Ora, sendo António Costa um mestre do improviso sem especial talento para o planeamento e um político que reage bem melhor do que age, ele é um homem com qualidades para o tempo errado. O primeiro-ministro poderia ser um óptimo líder para Portugal se o momento histórico que vivêssemos fosse dado à gestão de acontecimentos totalmente inesperados, onde a capacidade para arriscar e a criatividade política fossem grandes mais-valias. Só que não é esse o nosso presente. Aquilo de que precisamos desesperadamente é de assentar num rumo firme, sustentável e previsível para os próximos dez anos e numa profunda mudança de mentalidades. Pôr essa tarefa nas mãos de um jogador de casino é um risco imenso para Portugal. E, no entanto, ele aí está, a subir nas sondagens. Preparemo-nos: António Costa pode vir a revelar-se demasiado bom para o nosso bem.
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