Hospital de campanha

João César das Neves
DN 2016.04.21
O mundo vive um dos dramas mais pungentes e determinantes nas questões familiares. Trava-se aí uma guerra vasta mas surda, com efeitos mais profundos e devastadores do que as militares. Queda da natalidade e dissolução de laços vêm a par com promiscuidade, deboche, pornografia, depressão e solidão. Isto gera horrores na educação das crianças, orientação dos jovens, equilíbrio de adultos, assistência a doentes e idosos, estabilidade emocional de todos, com terríveis consequências culturais, económicas e sociais. Joga-se aqui um aspecto capital do futuro da humanidade.
A Igreja Católica tem uma posição clara, ímpar e estável que, contrastando abertamente com a atitude contemporânea, gerou naturalmente graves polémicas. As encíclicas Humanae Vitae de 25 de Julho de 1968 e Evangelium Vitae de 25 de Março de 1995 foram detonadores de magnas campanhas contra os papas beato Paulo VI e S. João Paulo II.
O Papa Francisco assumiu a centralidade do tema convocando dois sínodos logo no início do pontificado. A exortação apostólica Amoris Laeticia, que conclui esse vasto processo, representa um brilhante, detalhado e majestoso manifesto da família cristã. Num texto abertamente realista, totalmente ortodoxo e profundamente sublime, ele apresenta com toda a clareza e serenidade a proposta da Igreja. Denunciando com frontalidade os erros do mundo, anuncia sem ambiguidades as maravilhas que a doutrina católica traz à humanidade, pois "a verdade do amor entre o homem e a mulher se vê iluminada plenamente apenas à luz do amor de Cristo crucificado" (70).
A exaltação do matrimónio, fidelidade e castidade, a defesa da vida e o sacrifício de amor de noivos, esposos, pais e filhos são desenvolvidos e elaborados de forma clara, intensa e interpelante. Retomando a integralidade do ensinamento dos seus antecessores, por exemplo louvando abertamente a tão atacada Humanae Vitae, Francisco vai da elevação espiritual ao pragmatismo mais singelo, combinando sugestões concretas com composições teológicas, análises psicológicas e detalhes pastorais. Os cristãos, mas também todas as pessoas de boa vontade, têm aqui orientações concretas e preciosas para temas centrais e decisivos da sua vida.
Como é costume, a generalidade dos comentadores ignorou toda esta riqueza e profusão. Surpreende, porém, a ausência de discussão à volta dos temas que incendiaram décadas antigas. Francisco reafirma abertamente a doutrina católica acerca do preservativo (68, 82, 222), aborto (42, 179), eutanásia (48, 83), divórcio (41, 123, 246), uniões de facto (52, 212, 294), casamento homossexual (52, 251), ideologia do género (56), feminismo (54, 173), manipulações genéticas (56), e muitos outros temas. Todos esses aspectos, tão con- trastantes com a visão comum, passaram quase sem comentário, tal como se ignorou a permanente positividade como, em resposta, se propõe o amor da família cristã como caminho nos dramas da vida.
A controvérsia é grande, mas centrou-se antes num tema interno de disciplina sacramental, a comunhão dos recasados. O problema é muito importante, ligado ao acolhimento das vítimas da terrível guerra que a sociedade contemporânea trava contra a família. Mas é curioso que a própria guerra tenha ficado omissa nos debates. O tema é complexo, pelo confronto entre dois elementos incontornáveis da Fé, a indissolubilidade do matrimónio e a dignidade da eucaristia. Aqui o Papa, ao contrário do que se diz, não foi ambíguo, confuso ou hesitante. Afirmou com toda a clareza e frontalidade dois pontos fundamentais do ensino da Igreja: primeiro, a integralidade da doutrina católica, recusando tibiezas e relativismos (35, 300, 307); segundo, a necessidade de compaixão, caridade e integração das pessoas nessas situações que, pelo discernimento dos pastores, pode chegar, em circunstâncias atenuantes, à admissão aos sacramentos (305, 308).
Ninguém pode dizer que há uma nova doutrina, e ninguém pode dizer que está tudo na mesma. O Papa apresentou uma orientação pastoral clara, consagrando assim uma prática que, não sendo nova, a partir de agora será diferente. O elemento central nestes casos reside na responsabilidade do confessor que, de qualquer modo, sempre teve na mão o poder de absolver.
O mundo está em guerra contra a família, preferindo o egoísmo e a luxúria. Perante isto a Igreja, o hospital desta campanha (291), tem apenas uma resposta, que explode em cada uma das páginas desta exortação: "Só fixando o olhar em Cristo é que se conhece cabalmente a verdade das relações humanas." (77)
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