segunda-feira, 11 de abril de 2016

Coisas difíceis de pensar

Viriato Soromenho Marques
DN 20160411
Na sua obra Parménides, Platão constatava que há coisas tão vis (lama, sujidade...) que parecem carecer de uma ideia que as permita serem pensadas. 
O desempenho ministerial de João Soares parece pertencer a essa triste categoria de coisas sem conceito. Contudo, esforçadamente, talvez se possam identificar dois aspetos que merecem ponderação. 
Em primeiro lugar, o que significa responder a críticas de imprensa com uma ameaça de "bofetadas"? 
A única resposta que encontro é a persistência residual do ritual aristocrático de duelo, herdado de uma sociedade profundamente estratificada. Nessa altura, a noção de honra estava associada a uma conceção monolítica de identidade pessoal. Ao contrário das sociedades pluralistas contemporâneas, em que as opiniões resultam de processos dialógicos de aprendizagem, e em que a nossa própria identidade é modular e complexa, na visão da aristocracia do Antigo Regime a opinião não é uma construção, mas uma convicção ontológica. Se ela é posta em causa, isso é entendido como uma ameaça que só pode ser lavada em sangue. 
Em segundo lugar, o que significa um ministro alimentar uma polémica em torno da sua atuação política através de uma conta de Facebook? 
Apenas que ele nunca chegou a perceber que as redes sociais, essa porosa e poderosa bancada eletrónica, não são a esfera adequada para titulares de funções públicas debaterem questões políticas. Se um ator político não quiser perder uma gravidade funcional mínima, ele deve salvaguardar tanto a reserva da sua vida privada e familiar como defender os instrumentos formais e testados da comunicação pública. 
A culpa não é das redes sociais. Mas sim da falta de juízo no seu (ab)uso. A cultura tem horror ao vazio. Do novo ministro espera-se uma política credível. Com ideias para pensar e fazer.
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