O horror mora ao lado, Editorial, Expresso, 080503
| O caso Fritzl, o terceiro descoberto nesta década na Áustria, mostra que mesmo as sociedades mais assépticas produzem os seus próprios monstros |
Se alguém escrevesse um livro tendo por personagem central um homem de 73 anos que mantém em cativeiro a própria filha, de quem tem sete filhos, nunca lhe passaria pela cabeça escolher a Áustria para cenário de tal história. E, no entanto, pela terceira vez nesta década, a limpa, organizada e culturalmente requintada sociedade austríaca é abalada por um caso em que horror e sadismo convivem paredes meias com a banalidade quotidiana de uma pacata cidade a 130 km de Viena.
Depois das macabras histórias de Natascha Kampusch, raptada por um técnico de comunicações, de 36 anos, a caminho da escola e mantida entre os 10 e os 18 anos numa cave; depois das três meninas encarceradas durante sete anos pela mãe num subúrbio de Linz; surge agora o caso do engenheiro Josef Fritzl, de 73 anos, que drogou e encerrou a filha de 18 anos na cave de 80 metros quadrados da vivenda onde habitava - e aí a manteve durante 24 anos, sem que ela ou três dos filhos, por um dia que fosse, vissem a luz do sol ou a neve nas montanhas ou assistissem a alguns dos magníficos concertos de música clássica que se realizam na Áustria, atraindo melómanos de todo o mundo.
Será certamente por preconceitos culturais, mas tudo é mais chocante por se ter passado na Áustria, uma sociedade com patamares educacionais e culturais tão elevados que não se imagina que ali existam cidadãos, aparentemente afáveis e respeitáveis, capazes de tais horrores, mais próprios de um Bokassa ou de um Idi Amin do que de um morador de Amstetten.
Trata-se de casos isolados e deve recusar-se a ideia de uma síndrome austríaca. Mas não deixa de ser fascinante investigar qual a responsabilidade que sociedades tão assépticas de perfeitas têm na criação destes monstros.
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