Avô

Queridos amigos:
Quero agradecer a todos os parabéns e a alegria partilhada nas inúmeras mensagens recebidas.
Muitas falam de avós babados; estou ainda a tentar perceber se assim é, e a que é que este qualificativo corresponde.
De facto, mais do que perante o nascimento dos nossos filhos, a reacção mais evidente é mesmo de espanto.
Espanto pelo milagre da vida que antes não era e agora está ali, palpitante à nossa frente; comoção perante a pergunta que mais imediatamente salta sobre o destino daquela criança cuja vida se inicia no nosso mundo.
Dou comigo a pensar que este espanto e esta comoção, melhor, esta capacidade de espanto e de comoção, se se revela de modo tão evidente perante o nosso neto que ainda mal abre os olhos, é por ele despertada para também olharmos para nós próprios. O destino é o mesmo; quero dizer, o dele e o nosso; a nossa consciência de destino é que não é sempre tão viva. À frente dele, abre-se um futuro de esperança, que é também nosso. A esperança é mesmo isto: a certeza no futuro, por força de um facto presente. E o facto está ali à nossa frente, pesa 2,950 kg chora quando tem fome; dorme depois de comer.
Começo a perceber porque é que tantos colegas avós falam do bom que é ser avô; sempre achei que não devia ser por se poder disfrutar das vantagens de ser pai ou mãe, sem o custo educativo; não me parece que seja isso, de facto. É mais pelo renascimento de um ânimo que se torna evidente quando testemunhamos na primeira fila a promessa de ser que a vida faz aquela criança; a mesma promessa que nos faz a nós, desde que estejamos dispostos a reconhecer. Desconfio que ser avô aviva esta consciência de destino porque não podemos deixar de aplicar em nós, aquilo que aprendemos com o despertar para a vida dos netos.
A minha mulher dizia ontem, de uma forma muito bonita que a Inês a tinha tornado, mãe de uma mãe; é outra perspectiva que se abre aos avós: a nossa filha, os nossos filhos estão prontos para tomar o nosso lugar; estão preparados; conquistaram a nossa confiança; são capazes.
Dou comigo a pensar que sempre duvidei, mesmo insconscientemente, se a nossa filha estaria preparada para isto ou para aquilo; conhecemo-la desde sempre e não queremos que nada de mal lhe aconteça; e, mesmo que saiba que sim que está preparada para a vida, a condição de pai, porque protectora, condiciona a forma de olhar. Mas ontem, quando a vi pegar no seu filho com uma confiança como se sempre tivesse feito isso, percebi que tudo estava no seu lugar. É esta confiança que se transmite de forma tão visível que também faz parte (suponho) da condição “babada” de avô.
Vou continuar a tentar perceber o que faz em mim a condição de avô.
Um abraço amigo
Pedro Aguiar Pinto

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