A campanha do negacionismo

Manuel Carvalho Público 10/01/2016

A uma certa altura do debate na SIC, Sampaio da Nóvoa ficou mais sério, apontou a Marcelo Rebelo de Sousa e acusou-o de ter defendido a “austeridade”. O que estava implícito na acusação não era a denúncia de uma escolha errada, não era a crítica de uma opção política, não era o lamento pelas consequências que o corte de salários ou de pensões teve na qualidade de vida de milhares de famílias. O que estava subjacente na invectiva era muito mais do que isso: era a proclamação de um estatuto de superioridade moral. Neste país desmemoriado e volúvel a estados de alma, as presidenciais tentam justificar a sua existência com ajustes de contas, pessoais ou políticos, onde definitivamente a arrogância de uma certa esquerda da moda ou dos extremos se sente bem.
Quem não foi capaz de descobrir uma alternativa a um corte forçado nos gastos do Estado, como José Sócrates, quem teve de sucumbir à inevitabilidade de uma nova e vergonhosa ingerência externa para evitar o colapso das finanças públicas, como Passos, é hoje uma espécie desprezível e indigna de disputar cargos políticos. Mais do que uma desejável confrontação de ideias, de uma natural oposição de conceitos entre os espaços tradicionais da esquerda e da direita, o que começa a sedimentar-se no espaço público é uma catalogação que separa os defensores da “austeridade” e os que se lhe opuseram, os maus dos bons. O maniqueísmo no seu esplendor. O radicalismo da esquerda a suceder a um radicalismo da direita e a negar uma vez mais a voz moderada, conciliadora e prudente da grande maioria dos portugueses que vota no centro e dá corpo às diferentes ondulações do eleitorado flutuante.
Sampaio da Nóvoa, como Marisa Matias ou Edgar Silva, tornaram estas presidenciais numa versão 2.0 das legislativas porque para eles a dose de punição aplicável aos monstros da austeridade ainda não foi suficiente com os dois terços dos votos recolhidos pela esquerda. A tarefa crucial das suas candidaturas é extirpar de vez o monstro da vida política. No mundo imaginário da ortodoxia, a racionalidade política, a tal “arte do possível”, é um dispensável acessório de moda onde não cabem os “sim, mas”. A crítica radical à “austeridade” tornou-se um catecismo que leva ao céu os que a subscrevem sem hesitação e condena ao inferno os que tentam perceber a sua origem ou a explicar a sua inevitabilidade. Já não está sequer em causa a “austeridade” como programa transformador, que em tempos levou Passos Coelho e a sua hoste de intelectuais, que exaltam Wall Street mas nunca ouviram falar da Pampilhosa da Serra, a querer ir além da troika. Esses delírios em favor de cortes no Estado para “libertar” a sociedade civil podem subsistir no do que resta do Compromisso Portugal, no Instituto de Ciências Sociais ou nos departamentos de economia desta ou daquela universidade, mas deixaram de ser uma moda com a qual a direita conservadora tentou fazer a sua revolução. A noção de “austeridade” que agora paira no ar é um remake da luta de classes, uma ideologia primária que opõe maus e bons, ricos e pobres, neoliberais e democratas.
Este radicalismo recuperado nas presidenciais promove a consolidação de um negacionismo danoso. Desviar a “austeridade” da esfera política para uma dimensão moral obriga à reescrita do passado recente do país e impõe o apagamento da memória colectiva dos anos chumbo. Todos os que ousem questionar este reducionismo correm o perigo de ser condenados por desvios de direita. E a intimidação parece estar a dar frutos: a própria direita e boa parte dos que olham para o estado do país e do mundo e recomendam prudência desertaram desta campanha eleitoral. Até Marcelo foge do anátema nessa sua patética tentativa de ser tudo e coisa nenhuma, falhando clamorosamente no seu propósito de restaurar o centro político. A campanha tornou-se assim um “espectáculo de cobardia intelectual” que “entristece e envergonha” e que “abriu caminho para uma inominável campanha”, como notava ontem Vasco Pulido Valente no PÚBLICO.
Os efeitos desta ausência, porém, não se repercutem apenas no espaço da direita. A sua vítima principal pode ser até o centro-esquerda ou o Governo. Seria bom que personalidades como o professor Sampaio da Nóvoa constatassem que o seu discurso de tudo ou nada em torno da “austeridade” não é um património da esquerda: é um delírio do Bloco, do PCP e de todos os respeitáveis pensadores que ou defendem a utopia do amor e uma cabana, ou acreditam que um país consegue viver para todo o sempre gastando quatro ou cinco por cento a mais do que o que é capaz de ganhar. Costa e os seus ministros bem sabem que têm de contribuir para esse folclore, garantindo o virar a página da “austeridade” sem ter de mudar de livro. Sabem também que é possível adoptar políticas inteligentes de esquerda com impactes orçamentais irrelevantes ou nulos – é o caso das alterações no quociente familiar do IRS que fazia com que as deduções dos filhos dos mais ricos fossem maiores, ou a proibição do fisco de vender casas por causa de dívidas fiscais. Mas nós também sabemos que, na prática, a “austeridade”, infelizmente, não acabou. Porque não deixámos de ser um país pobre cujo Estado continua a endividar-se e a gastar mais do que o que recebe.
O maior perigo para o país é deixar que este negacionismo do passado recente instale a ideia de que a “austeridade” foi obra e graça de Sócrates, de Passos e de outros delinquentes dedicados a esmifrar os mais pobres. Com o discurso radical do Bloco e do PCP a ser amplificado pelo mais forte candidato da esquerda, com um Marcelo desalmado a salvar a pele com medo de assumir as suas ideias e Maria de Belém perdida num espaço político vazio e inseguro, só Henrique Neto tem mostrado desprendimento e coragem suficientes para contrariar o discurso dominante do negacionismo. Numa eleição com esta importância, é muito pouco. Por muito que o negacionismo da esquerda extrema ou da intelligentsia idealista se recusem ver a realidade, não é por isso que a realidade muda. Colar a Sócrates, a Passos ou à grande maioria dos economistas independentes o selo de desprezível defensor da “austeridade” é condenar todo o esforço colectivo do país entre 2010 e 2015 à irrelevância. Infelizmente, esse cenário não é irreal. Depois de um presidente que via o mundo a preto e branco, dificilmente escaparemos ao destino de ter em Belém um sucessor que o vê a branco e preto ou um espalha-brasas que o encara como um caleidoscópio. Má sorte.
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