segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Um homem singular

António Lobo Xavier Público 24/01/2016 - 21:58

À hora em que fecho este texto, tudo indica que Marcelo Rebelo de Sousa será o novo Presidente da República.
Nunca achei que este resultado estivesse inscrito nos astros, ou que fosse natural. Penso, por isso, que ele se deve antes à singularidade do candidato: não há na galeria de figuras públicas portuguesas nenhum outro que conseguisse chegar a este lugar contra todos os partidos de esquerda e, simultaneamente, beneficiando apenas de uma espécie de condescendência rendida dos partidos da direita.
Não há também nenhum outro que fosse capaz de confiar tanto em si próprio, ao ponto de apostar numa campanha baseada em contacto pessoal, totalmente despovoada dos habituais notáveis da política, sejam eles os barões nacionais ou os caciques locais. Aqui estará o seu poder, decerto, e aqui estará seguramente – ao menos no início – uma certa incapacidade que todos sentem quando se trata de adivinhar como será este mandato.
O PS é, sobre todos os pontos de vista, o grande derrotado, e revela uma tendência acelerada de desagregação de votos. Mas, curiosamente, poderá dizer-se também que António Costa, mais uma vez, perdendo, ganha. Se o seu objectivo é ganhar tempo, como parece, disporá de um Presidente equilibrado e “centrista” a que poderá tentar recorrer quando se agudizarem – como tudo indica, e mais cedo do que se esperava – os descontentamentos ou as pressões crescentes dos lados do seu apoio parlamentar.
Tão depressa não será fácil obter compreensão equivalente junto do PSD ou do CDS. E Sampaio da Nóvoa, absolutamente comprometido com a governação e os seus suportes, cantando a Grândola e procurando “aprofundar Abril”, seria sempre mais um obstáculo (ou, no mínimo, um elemento inútil, neste plano). Do meu ponto de vista, isto era essencial para Portugal.
Quanto tempo consegue ganhar António Costa, afinal? Provavelmente, o tempo que o PCP levar até se libertar de um apoio que se revela tão cruel, já que acaba de verificar que a primeira eleição em que não combate abertamente o Governo é aquela em que obtém os seus piores resultados eleitorais.
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