quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Razões para a maior decisão política da campanha

José Luís Ramos Pinheiro RR online 21 Jan, 2016

Marcelo percebeu que o país estava cansado dos políticos e não quis aumentar a fadiga discursiva, nem ser vítima dela.
Não fazer política foi a maior decisão política da campanha eleitoral e pertenceu a Marcelo Rebelo de Sousa, também ele o mais político de todos os candidatos.
A opção de Marcelo tem sido explicada, dizendo-se que ao contrário dos outros, este candidato não precisa de grandes tiradas políticas para ganhar eleições. É verdade. Marcelo é suficientemente conhecido. Durante anos escrutinou e foi escrutinado: a vida do país e do mundo foi objecto de análises e pronunciamentos do “Professor”; análises e pronunciamentos que o país conheceu e sobre os quais também discorreu. Não precisa de prometer o que não pode garantir.
Mas a intuição de que portugueses estão saturados dos debates do costume deverá ter pesado na decisão de Marcelo, optando por uma campanha eminentemente afectiva. A crise dos últimos anos e a baralhação política no rescaldo das legislativas tornou os portugueses (ainda) mais cépticos sobre o discurso político. E uma campanha eleitoral à saída de uma conturbada formação de Governo não é a melhor das ocasiões para reabilitar a política com ‘P’ grande.
Grandes debates, sobretudo quanto a temas da esfera de competências do governo, fariam certamente subir o tom da campanha, mas não é líquido que aumentassem a participação, podendo mesmo agravar o divórcio entre os eleitores e as causas públicas. Um debate crispado, e marcadamente ”político”, induziria uma abstenção ainda mais elevada do que aquela que se perspectiva.
Marcelo percebeu que o país estava cansado dos políticos e não quis aumentar a fadiga discursiva, nem ser vítima dela. Por isso, a opção afectiva de Marcelo corresponde ao seu perfil pessoal, mas é também uma decisão racional.
No domingo ver-se-á se esta foi a melhor opção, mas, com os dados disponíveis, tudo aponta para a vitória de Marcelo à primeira volta.
Se o comportamento da abstenção baralhasse os resultados eleitorais e houvesse uma segunda volta, assistiríamos, seguramente, a uma campanha mais politizada – não por vontade do candidato Marcelo, mas devido ao calendário orçamental.
Nas próximas semanas, Portugal vai conhecer as opções orçamentais da maioria que sustenta o Governo. Entre as opções da Europa e as imposições dos seus parceiros, o caminho orçamental do Governo é estreito. Ao aliar-se à esquerda, António Costa sabia ao que ia: a aliança à esquerda tem custos, sobretudo numa altura em que o país melhorou, mas ainda não recuperou.
Neste quadro, o debate sobre o estado da nação e, no limite, sobre a sustentabilidade do Governo há-de regressar muito em breve. A haver uma segunda volta, é impossível que o debate orçamental não contamine, ainda que parcialmente, a campanha eleitoral.
Em qualquer caso, uma segunda volta em 2016 seria profundamente diferente daquela outra que há 30 anos atrás levou Mário Soares a vencer Freitas do Amaral, num “sprint” eleitoral impressionante.
De facto, os candidatos que ocupariam potencialmente o lugar de Mário Soares (Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa) não despertam no país a afectividade (de novo a tecla afectiva…) que dava ao fundador do PS uma posição ímpar na política portuguesa em 1986. E Marcelo Rebelo de Sousa também não concentra os receios – ou mesmo os ódios – que Freitas do Amaral suscitava na esquerda, obrigada a engolir todos os sapos e a entregar Belém a Mário Soares.
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