quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

As vítimas de 'Charlie'

João César das Neves
DN 20160114

Charlie Hebdo é um semanário humorístico extremista e radical, adepto de piadas insultuosas e de mau gosto. A sua especialidade é abusar da liberdade de expressão para atacar os sectores mais variados da sociedade; todos os que não seguem a sua orientação anarquista, ateia e socialmente libertária.
A receita estava a falhar, pois a publicação perdia dinheiro e leitores. Até que no dia 7 de Janeiro de 2015 dois irmãos franceses de origem argelina, pertencentes à Al-Qaeda, irromperam pelos escritórios da revista, matando seis autores e mais cinco pessoas, entre outros feridos. Para a publicação, este atentado representou a melhor forma de publicidade que poderia ter. Passou de título menor e em decadência à fama mundial. Os terroristas conseguiram exactamente o contrário do que pretendiam.
Este triste acontecimento teve muitas vítimas. Muitas mais do que parece. A primeira é, evidentemente, o Charlie Hebdo. Sobretudo pela horrível perda de vidas, mas também pelos efeitos que a agressão teve sobre a revista. Porque, é preciso dizê-lo, a sua linha editorial sempre foi claramente agressiva, injuriosa, roçando os limites do tolerável numa sociedade livre e democrática. Agora, confirmada pelo martírio, a orientação vê-se corroborada e até aprofundada. Devido à violência que sofreram, sentem-se justificados para praticar o seu tipo de violência com total impunidade. E quem se queixar é imediatamente apelidado de terrorista. Além disso, muitos outros, um pouco por todo o mundo, vão tentar copiar, criando novos jornais semelhantes. Em nome da liberdade de expressão vão-se praticar os piores atentados contra essa mesma liberdade, por pessoas que não entendem que a decência e o respeito são suportes da liberdade.
A segunda vítima são os movimentos terroristas. Mais uma vez, sobretudo porque os agressores também perderam a vida, mas também porque o resultado confirmou a sua orientação. É evidente para todos que o atentado foi terrível para a causa islâmica. Para todos, menos para os fanáticos extremistas, que também se sentiram confirmados na sua orientação pelos efeitos de 7 de Janeiro. Saïd e Chérif Kouachi são tão mártires para os seus correligionários como Charb ou Wolinski para os cartoonistas. Também eles vão gerar imitadores, radicalizando muitas pessoas, até por verem que os desenhos ofensivos aumentaram, em vez de diminuírem.
A terceira vítima são as pessoas moderadas e decentes que, perante o choque deste embate de extremismos, se sentiram seduzidas por um ou outro. Mesmo sem chegarem ao ponto de os copiar, as agressões pictóricas ou sangrentas mudaram os critérios e as atitudes das sociedades. Com os ataques de há um ano, como os anteriores e seguintes, todo o mundo desceu mais um passo na espiral da violência.
Ingenuamente, o choque pela barbaridade transformou-se em aplauso pelo extremismo oposto, dessa forma promovendo ambos os radicalismos. Os dois tipos de ataque não são equivalentes, mas nenhum deles é inocente. No Ocidente tornou-se chique louvar, premiar e admirar o Charlie Hebdo, sem dar atenção ao conteúdo das suas páginas. Medalhas, homenagens, placas e celebrações foram multiplicadas sobre as vítimas, não tanto pelo que fizeram, mas pelo simples facto de terem morrido como morreram. Muita gente honesta e respeitosa andou a dizer Je suis Charlie, sem ter a menor ideia do que isso significa. Deste modo, obras e opiniões repugnantes ganham honorabilidade e até prestígio.
Por outro lado, é hoje fácil no mundo muçulmano invocar as blasfémias e indecência da revista como prova da hostilidade ocidental ao Islão. Mais, ver a publicação atingir o estrelato, e aqueles que insultaram a sua fé receberem as mais altas honras nacionais, torna-se, em si mesmo, um ultraje agravado.
Existem mais vítimas, como todos os muçulmanos pacíficos e cordatos que são agredidos por causa dos atentados que repudiam. Mas as vítimas principais, seja dos cartoons do Charlie ou dos tiros da Al-Qaeda, são a civilização, a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de religião e a simples dignidade humana.
Vivemos um tempo de transformação, novidade e ruptura, que choca todo o mundo. Em todo o lado sobem as forças extremistas e radicais, prontas para derrubar os valores sociais. Nada disto tem que ver com o caso de Charlie, que lida com temas intemporais. Mas compreender os contornos deste incidente, e sobretudo as suas vítimas, é decisivo nos tempos que correm. Precisamente porque todos vamos ter de aprender a lidar com extremistas.
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