quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Réplicas e tréplicas das presidenciais

PAULO RANGEL Público 26/01/2016
Que ninguém subestime o valor e o peso desta capacidade de comunicação directa com os cidadãos: ela representa um activo potente e com enorme potencial.
É preciso dizê-lo sem tibiezas: depois de tantos anos de desencanto com a classe política, dá gosto que uma pessoa com a estatura cultural e intelectual e com o percurso cívico e político de Marcelo Rebelo de Sousa se tenha disponibilizado para ser Presidente da República. Basta ter na retina a escolha do local para fazer o discurso da vitória e ter no tímpano o eco desse mesmo discurso para nos apercebermos dos patamares que a política portuguesa foi chamada a subir. Ao longo da pré-campanha e da campanha Marcelo foi capaz de revelar que não era apenas uma pessoa invulgarmente inteligente, coisa que já todos sabiam e que alguns, aliás, receavam. Marcelo foi também capaz de mostrar que era senhor de uma poderosa e sábia inteligência emocional. E, até mais do que isso, que era senhor de uma sóbria emoção inteligente.
O modo como preparou a candidatura e como geriu as expectativas próprias e alheias no seu campo político trouxe à tona o seu lado mais cerebral e sua inigualável experiência. O modo como orientou a pré-campanha e a campanha pôs a nu a sua faceta mais humana e afectiva. O modo como soube dosear ambas as dimensões, a mais intelectual e mais emocional, permitiu-lhe ganhar a confiança da maioria absoluta do eleitorado. Eis o que desmente a ideia feita, muito propalada pelos seus adversários vindos de todas as áreas políticas, da inteligência pura e fria, marcada pelo puro calculismo e até pelo maquiavelismo. Creio que a política portuguesa precisa como do pão para a boca de protagonistas com esta qualidade e competência, mas também com esta humanidade e proximidade existencial. Que ninguém subestime o valor e o peso desta capacidade de comunicação directa com os cidadãos: ela representa um activo potente e com enorme potencial. Esta captação e cativação desse poder nuclear pelo próximo Presidente da República é uma das mais importantes réplicas e tréplicas deste acto eleitoral.
As réplicas e tréplicas do lado dos partidos da esquerda, originadas pelos surpreendentes resultados e pelo alinhamento destes, são mais palpáveis e tangíveis.
A primeira – e mais imediatamente problemática – é a da redução drástica dos votos no candidato comunista. Esta redução é tanto maior quanto temos de ter em conta que a abstenção foi anormalmente elevada e isso tenderia a favorecer o posicionamento final do candidato comunista. A que acresce o resultado pujante da candidata do Bloco que obviamente apouca ainda mais as cifras dos comunistas. A derrota substancial e expressiva de Edgar Silva contém, pois, em si o potencial de criar danos sensíveis na coligação assimétrica de esquerda que sustenta o Governo. A votação dos comunistas demonstra bem que o apoio dado ao Governo socialista não é percepcionado como um “bom negócio”. O eleitorado comunista parece entender que, para apoiar as políticas “coloridas” de António Costa, há outras opções viáveis: seja o Bloco, seja o PS, seja eventualmente a abstenção. O resultado decepcionante do Padre Edgar vai levar o Partido Comunista a repensar o seu lugar no arranjo de suporte do Governo. E se não conduzir a uma retirada rápida do apoio prometido, vai pelo menos radicalizar muito as exigências a fazer ao PS. Uma tão grande perda só valerá a pena e só será susceptível de ser estancada se os ganhos forem igualmente grandes.
A segunda onda de réplicas e tréplicas apanhará o PS. A estratégia presidencial de Costa revelou-se um desastre e deixou lanhos e feridas difíceis de sarar. A opção preferencial por um independente, ainda que temperada por uma jura pouco credível de neutralidade, não será esquecida por muita gente no PS. O modo como foi incentivado e orquestrado o inenarrável ataque à honra e dignidade de Maria de Belém também deixará muitos tecidos por suturar. A soma dos resultados dos dois candidatos da orla socialista anda à roda dos 27 por cento, bem abaixo da percentagem obtida pelo PS aquando da derrota de Outubro. A que acresce que Sampaio da Nóvoa à solta vai tentar capitalizar o seu resultado para, na boa tradição eanista, pressionar o sistema partidário formal, que o mesmo é dizer, o PS. E, bem assim, o sucesso da candidatura do Bloco vai criar a ideia de que a prazo o Bloco, à maneira de um Syriza e de um Podemos, pode competir com o PS e disputar a sua hegemonia à esquerda. Eis o que António Costa não deve olvidar no juízo que tem de fazer sobre a subsistência do seu Governo e do esdrúxulo arranjo parlamentar que lhe serve de sustento.
A terceira onda de réplicas e tréplicas respeita ao Bloco de Esquerda. Muitos encarecerão a sua dianteira na disputa da agenda política com o PCP. E outros, sublinharão o nascimento de uma vocação de ocupação do espaço do PS. Devo dizer, porém, que, a meu ver – e estou à vontade para o escrever, porque o disse muito cedo, antes do reconhecimento generalizado –, o sucesso nas presidenciais tem uma óbvia responsável: Marisa Matias. Sem o seu carisma e sem a sua genuinidade, por mais atractivos que se mostrassem os princípios políticos e programáticos do Bloco, o resultado não teria sido este. Pois bem, esta personalização há-de ter, no médio prazo, repercussões na vida do Bloco. Marisa mostrou ter um estilo de liderança que acabará por ameaçar o perfil mais baixo de Catarina Martins e o protagonismo guerreiro de Mariana Mortágua. A força revelada nesta campanha, agora ungida pelos votos, há-de, mais tarde ou mais cedo, fazer sentir o seu peso.
Uma nota final para repudiar o tratamento indigno a que, em plena campanha e por mais do que uma vez, alguns votaram Maria de Belém Roseira. Maria de Belém é uma das personalidades políticas mais íntegras, sérias e decentes que conheci. Uma mulher que é uma mais-valia para Portugal e para a política. Merece a solidariedade de todos os que acreditam na causa pública.
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