Mais vale tarde que nunca

Mauro Xavier
OJE 21/01/2016 - 22:19:44

É com satisfação e mágoa, em simultâneo, que escrevo estas linhas.
Satisfação por ver a justiça cumprir-se, ilibando sem margem para dúvida um ex-presidente da Câmara de Lisboa que demonstrou inegável competência no exercício destas funções. Mágoa por concluir que a justiça em Portugal continua a funcionar de forma demasiado lenta: António Carmona Rodrigues esperou quase nove anos para ver o seu nome finalmente livre de qualquer suspeita de prevaricação enquanto titular de cargo político no negócio de permuta de terrenos do Parque Mayer com terrenos municipais da antiga Feira Popular, autorizado pela Assembleia Municipal em 2005.
O Tribunal da Relação de Lisboa acaba de confirmar a decisão do Tribunal Central de Lisboa que em Outubro de 2014 ilibara por “clara falta de prova” os arguidos no chamado “caso Bragaparques”, assim chamado por esta empresa ser a antiga detentora dos terrenos do Parque Mayer.
Entretanto a carreira política que Carmona Rodrigues vinha desenvolvendo, em benefício de Lisboa e com franco agrado dos seus munícipes, foi fatalmente prejudicada. Ninguém lhe devolve agora todos os agravos de que foi vítima de 2007 para cá.
Agravos – e é ainda com maior tristeza que o reconheço – que vieram até de onde menos se esperava. Ou seja, do PSD que o levou a candidatar-se, beneficiou da popularidade do engenheiro tornado autarca e acabou afinal por retirar-lhe o tapete sem fundamento, na aparente tentativa de embarcar na primeira carruagem da demagogia galopante e do populismo mais rasteiro.
Foi uma página lamentável da história do partido em Lisboa que acabou por reconduzir o PS à gestão autárquica. Tantos anos depois, o Parque Mayer e a Feira Popular permanecem sem solução. De António Carmona Rodrigues, cumpre dizer, nunca se ouviu uma palavra pública de recriminação pela manifesta ingratidão de que foi alvo. Soube manter a elegância e a discreta dignidade que já tinha revelado no exercício das funções autárquicas, entre 2004 e 2007.
Claro que a notícia da sua definitiva absolvição pouco mais mereceu agora do que um discreto eco informativo. Em contraste absoluto com as parangonas registadas há nove anos.
Até ao momento não escutei ainda um pedido de desculpa do responsável máximo do PSD que na altura foi conivente com o linchamento moral de Carmona Rodrigues, recusando-lhe aquilo de que qualquer cidadão goza por imperativo constitucional: a presunção de inocência. Esse pedido de Luís Marques Mendes justifica-se, sem demora. Mais vale tarde que nunca.
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