quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Cavaco Silva sai com chave de oiro



Maria Teixeira Alves, Corta-fitas, 2016.01.25

O Presidente da República vetou a adopção pelos homossexuais e as alterações à lei do aborto. É a medida que se impunha. Fê-lo no dia a seguir às eleições que escolheu o seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem em comum os mesmos valores. 
Podemos tirar daqui uma de duas conclusões. Cavaco Silva sabia que ia vetar as leis que a esquerda se apressou a aprovar assim que conseguiram tirar o PSD/CDS do Governo (de tal maneira é a coisa mais importante para a esquerda que foi a primeira medida a ir ao Parlamento - que obsessão!).
Se o fizesse antes podia prejudicar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente e por isso (combinado) anunciou o veto quando a eleição já não estava em risco.
Pode também ser visto como um presente envenenado que Cavaco Silva deixa ao seu sucessor. Até onde vai a ditadura do consenso de Marcelo? O consenso pode muito bem ser uma ditadura. Dada a falta de liberdade que lhe pode estar subjacente. Marcelo, o homem que marchou contra o casamento gay na manifestação pela família em 2010, como vai ser a sua posição? 
Cavaco Silva argumentou que falta um “amplo e esclarecedor debate público” sobre a adopção plena por casais do mesmo sexo para que se possa introduzir uma alteração tão “radical e profunda” na lei. Eu na minha parte acho que não falta debate nenhum, é evidentemente uma lei que não defende as crianças, mas sim os adultos. Mas o importante é vetar a lei. Não ceder à força do marketing, às pressões da moda, à intimidação dos defensores. Foi isto tudo Aníbal Cavaco Silva, e isso dignifica a sua passagem por este mundo. O seu papel na política portuguesa é inegável. Aníbal Cavaco Silva é sem dúvida uma personagem incontornável da História de Portugal das últimas décadas. Poucos se podem orgulhar de tal. É um homem da velha guarda, com um casamento de amor, estável e duradoiro, que lhe deu uma família feliz. Cavaco Silva pode orgulhar-se da sua vida, somou triunfos pessoais e profissionais invejáveis. 
O mundo que Aníbal Cavaco Silva conheceu quando entrou na vida política portuguesa como primeiro-ministro mudou muito, não necessariamente para melhor. Mas disso pouco se-lhe pode atribuir.
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