MEDO DOS REFUGIADOS?

Pedro Vaz Patto

Já os atentados de Paris, em novembro, para isso tinham contribuído. Mas foi sobretudo a série maciça de agressões de cariz sexual a mulheres na noite de passagem de ano, em Colónia e noutras cidades alemãs, a colocar em causa, em muitos setores da opinião pública, a política de abertura e acolhimento para com a atual vaga de refugiados na Europa. Em vez de suscitarem a solidariedade, estes parece que agora suscitam medo.
Não deve ser minimizada a gravidade desses acontecimentos de Colónia e outras cidades, além do mais pelo seu caráter múltiplo e organizado (e nessa medida inédito). Nem deve ocultar-se a origem e nacionalidade dos responsáveis, muitos deles, na verdade, candidatos a obter o estatuto de refugiado e de origem árabe ou norte-africana.
Mas já me parece abusivo o que tenho lido sobre a suposta especial propensão de homens de cultura muçulmana, árabe ou africana, para esse tipo de crimes. Como se os seus autores não representassem uma exceção minoritária no conjunto dos refugiados.
É verdade que há um caminho a percorrer no sentido do respeito pela dignidade da mulher em sociedades de cultura islâmica, que tradicionalmente aceitam a poligamia ou casamentos forçados. Não pode ignorar-se que é maior o respeito por essa dignidade onde se sente a influência do cristianismo. Mas nem nessas sociedades de cultura islâmica, ou africanas, se aceitam formas de violência sexual como as que estão em causa. Não pode um bando de delinquentes (por muito extenso ou organizado que seja), muitos deles embriagados, representar os valores da cultura islâmica, ou da cultura africana.
Também na Europa muito caminho há a percorrer no sentido do respeito pela dignidade da mulher. Algumas inovações que aqui se apresentam como progressistas (a legalização da prostituição ou das “barrigas de aluguer”) representam até um retrocesso nesse caminho, porque se traduzem em formas legalização da “coisificação” da mulher. Muitos europeus são clientes das mulheres vítimas de redes de tráfico para prostituição. E a violência sexual na Europa também não é, obviamente, exclusivo de imigrantes ou refugiados. Houve quem recordasse, a propósito, as violações praticadass habitualmente durante a Oktoberfest (a “festa da cerveja”) de Munique, em número maior dos que as praticadas em Colónia na noite de passagem de ano.
À violência sexual pode associar-se uma mentalidade hedonista sem limites, que não valoriza o autodomínio dos instintos sexuais, mentalidade tão comum nas nossas sociedades europeias. Um estudo recente, das Universidades de Indiana e do Havai, baseado numa meta-análise de outros 22 estudos de vários países, publicado no Journal of Communication de 29 de dezembro, vem demonstrar (contra o que também, já se sustentou), a correlação ente o consumo de pornografia e a prática de crimes sexuais (ver www.lifesitenews.com). Ora, a liberdade desse consumo é geralmente tida, nas sociedades ocidentais, como absolutamente intocável, ou até sinal de avanço civilizacional no confronto com outras culturas.
Quem não se deixa influenciar pelo clima de medo para com os refugiados que parece crescer na Europa é, claramente, o Papa Francisco.
No seu recente discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé (ver www.vatican.va), afirmou que «as migrações constituirão uma pedra angular do futuro do mundo, mais do que o têm sido até agora», e que as respostas a este fenómeno «só poderão ser fruto dum trabalho comum, que respeite a dignidade humana e os direitos das pessoas». Salienta como «muitos migrantes, originários da Ásia e da África, veem na Europa um ponto de referência por princípios, como a igualdade perante a lei, e valores inscritos na própria natureza de cada ser humano, como a inviolabilidade da dignidade e da igualdade de cada pessoa, o amor ao próximo sem distinção de origem nem de raça, a liberdade de consciência e a solidariedade com o seu semelhante». Considera que o regime de acolhimento de refugiados «laboriosamente construído sobre as cinzas do segundo conflito mundial» constitui ainda «um farol de humanidade a servir de referência». E adverte que a resposta à atual crise de refugiados não pode «minar as bases daquele “espírito humanista” que a Europa ama e defende desde sempre».
Nesse discurso, o Papa não ignora a exigência de reciprocidade quanto aos direitos e deveres dos refugiados e imigrantes, por um lado, e de quem os acolhe, por outro. Nem a possibilidade de choques culturais. Mas a resposta há de ir para além do fechamento, da ignorância, do preconceito e do medo: «o acolhimento pode ser ocasião propícia para uma nova compreensão e abertura de horizonte, tanto para quem é acolhido, que tem o dever de respeitar os valores, as tradições e as leis da comunidade que o acolhe, como para esta última, chamada a valorizar aquilo que cada imigrante pode oferecer para benefício de toda a comunidade».
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