quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

“Nunca é tarde demais para escrever sobre quem se ama… meu Avô, António de Almeida Santos”

MANUEL MAGALHÃES | Expresso 20.01.2016

Nasceu num momento dramático, quatro meses apenas depois de Almeida Santos ter perdido uma filha. Ficou uma relação especial entre avô e neto. Cantavam juntos, partilhavam experiências. Em 2009, Manuel Magalhães prestou uma homenagem ao avô, nas páginas do Expresso. Volta agora, já médico cardiologista, para contar em exclusivo o que ficou por dizer. Quando recebeu a notícia da morte do avô, Manuel estava em Angola e escreveu este depoimento durante a viagem de avião para poder estar presente no funeral. A correr, mas sempre a tempo
Perdoa-me Avô António por cometer este quase sacrilégio de tentar passar em palavras o que foste enquanto meu Avô, pesam demais as teclas no meu computador, a inexperiência em escrever e o peso de o fazer apenas um dia depois de teres levantado âncora desta vida cheia que tiveste.
Não tenho o teu dom da palavra, da sobriedade e da serenidade mas tive a sorte ou o milagre (bem sei que não os crês) do teu amor durante longos e cheios 35 anos. Sou um abençoado tal como todos os que te rodearam.
Neste momento quero apenas celebrar o que vivemos, com uma saudade imensa e com a esperança, de quem acredita, que nos encontraremos lá para a frente seja onde isso for. Vou escrever sobre ti simples sorridente e optimista como sempre foste…
Lembro-me dos teus mimos, das longas horas que brincaste comigo sentado ao teu colo. O jogo das palmadas nas mãos, sempre suaves e carinhosas, após “um, dois, três” contado em uníssono e impecável sincronia era de longe o meu favorito! Quantos risos, quantas e tantas vezes que te pedi para o repetires e quantas e tantas vezes o repetiste. Comigo e os outros primos depois de mim. São já 8 netos e 3 bisnetos! É muita obra, muito colo!
Tenho saudades dos Domingos! Foste sempre um líder, chefe de família, de um clã que cultivaste e mantiveste unido até ao fim. Domingo após Domingo acolheste-nos em tua casa, a fizeste sentir nossa, sempre de porta aberta, com comida na mesa, alegria no rosto e calor no coração. Iamos-te sempre chamar ao escritório para jantar. Poucos sabem mas não me recordo nem de um único dia do senhor em que não trabalhasses. Estavas sempre a escrever com a tua esferográfica preta ou encarnada, enfiado no meio de centenas de folhas e livros e como tu dizias, a fazer o que melhor sabias fazer na vida… trabalhar! Mas quando lá entrava paravas, recebias-me com um brilho contagiante nos olhos e um alegre “como estás meu velho?”. Que bom era ali chegar. Fazias-me sentir especial…
Foste meu amigo e fiel conselheiro nos momentos em que mais duvidei. Quando não sabia o que fazer tu transformavas o complicado em simples e fácil com uma resposta invejavelmente lógica e curta só ao nível dos predestinados. A mais pesada das dúvidas que tive foi escolher entre a Medicina ou a Operação Triunfo, era a responsabilidade do que esperavam de mim contra o que eu sonhava. Sorveste todas as minhas palavras atentamente e levemente respondeste:
“Se não o fizeres vais ficar o resto da tua vida a perguntar como teria sido? Então faz.”
Ao mesmo tempo asseguravas todos de que seria apenas uma experiência para mim e que era claro que seguiria depois com a Medicina. Já sabias tu!
Aliás foste tu que me pegaste o bichinho da música. Muitos serões de guitarra clássica ou Portuguesa na mão a cantares com e para a família. Profundo e intenso. Ainda tenho o som da tua voz e os toques límpidos da guitarra gravados nos meus ouvidos, nos meus olhos a tua imagem a cantar compenetrado e como era contagiante.
Nunca gravamos o nosso prometido fado… e que pesada pena eu tenho.
Sei que te preocupaste comigo sempre, com os meus estudos, as minhas escolhas e que no meio de tanta ocupação arranjaste sempre tempo para me perguntar, ouvires e andares informado. No fundo acho que tinhas medo que não assentasse e continuasse a viver apenas de sonhos e saltar de namorada em namorada. A verdade é que também não foram assim tantas. Mas conheceste todas e trataste-as como se fossem as mais importantes da minha vida. Era esse mais um dom… fossem meus amigos, namoradas ou apenas conhecidos fazias as pessoas sentirem-se em casa, especiais e únicas naquele momento confrangedor que era conhecer o António de Almeida Santos. Mas afinal eras só o meu Avô!
Foste sempre mais carinhoso do que alguém possa imaginar, sempre mais atento e presente do que quem está sempre lá.
Um patriarca!
Apesar de toda esta responsabilidade nunca te vi elevar a voz para quem quer que fosse, destratar ninguém, irritares-te com alguém, descontrolares-te ou impores-te pela força e, (quase) tudo o que dizias estava certo e convencias os que te rodeavam. Foste sempre convincente e um porto seguro para a família, para os amigos e para os colegas. Nunca vi ninguém duvidar de ti ou das tuas palavras. Tens bons e verdadeiros amigos em todo o mundo que te reconhecem e sentem a tua perda.
Mesmo assim decidiste partir da única maneira possível para ti… de repente.
Sei que se pudesses escolher teria sido exactamente assim que escreverias o teu fim. Rápido, simples e junto dos teus.
Escreveste o capítulo final. Tiraste o quase das memórias.
Não fiques triste mas hoje rezo ao meu Deus por ti. Porque te adoro e me deste mais do que podia pedir.
Guarda-me um lugar nessa nova Assembleia onde já deves estar a presidir… mas isso não interessa pois para mim és só o meu Avô António.
“Até já meu velho…”

Depoimento recolhido por Christiana Martins
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