Vazio de poder

Inês Teotónio Pereira | ionline 2016.01.26

Passo os dias a berrar com os meus filhos. É assim desde sempre. Já tentei melhorar mas nada. Não tenho melhoras. Há sempre um novo motivo para um novo grito e já percebi que não sou só eu: todas as mães berram com os filhos. 
Umas mais do que outras, é certo, mas é um mal transversal e isso conforta. Quando percebi que todas as mães se fartam de gritar com a criançada (menos a minha) senti-me mais confortável nesta minha característica. O benchmark é-me favorável. E já vivo bem com o assunto. Vivo de tal forma bem com o assunto que hoje em dia já não grito de vez em quando, grito sempre. Grito para eles irem tomar banho, grito para arrumarem os quartos, grito para apagarem as luzes, grito para irem jantar, grito quando me zango e grito quando dou ordens. São raras as vezes que não o faço. O mal deste meu mal é que ele já dura há tantos anos que os meus filhos já não ligam e cada vez tenho de gritar mais alto para eles ligarem alguma coisa. E o pior ainda é que agora toda a gente na minha casa grita. Falamos todos aos gritos. O assunto está assim resolvido: não sou só eu, gritar faz parte da normalidade doméstica. 
Sanada esta questão dos gritos encontrei agora outra relativa ao meu comportamento com efeitos muito mais nocivos para a criançada: eu trato os meus filhos como os sindicatos tratam os governos - estou sempre a chateá-los. Há sempre qualquer coisa que não está feita ou que podia estar mais bem feita, há sempre qualquer coisa errada, há sempre uma crítica a fazer. O paralelismo é incontestável: os sindicatos vivem para malhar nos governos; eu vivo a malhar nos meus filhos.
Ora, se normalmente os problemas entre os sindicatos e os governos se resolvem com greves ou negociações, na circunstância doméstica  não há possibilidade nem de uma coisa nem de outra: os meus filhos não têm instrumentos de negociação e a mim não assiste o direito constitucional à greve. O mais grave é que as implicações deste impasse são sérias: os meus filhos já não me ligam patavina. Eu leio na cara deles enquanto grito, critico e dou ordens: “quando é que esta histérica se cala para eu ir à minha vidinha”. Sendo que eles apenas respondem: “sim, mãe”.  E agora? Agora percebi que perdi a batalha, que a minha credibilidade está no chão, que sou um regime a apodrecer. Agora sei o que sentiu Marcelo Caetano e consigo imaginar a dor e a impotência dos cavaquistas no fim cavaquismo.
E agora, sendo eu uma sindicalista de bom senso, sei que tenho de me sentar à mesa das negociações e convencê-los de que os meus direitos e as minhas reivindicações  são de interesse comum e não sectorial. Ninguém acredita, eu sei. E é por isso que tenho de voltar a ganhar a confiança do pequeno exército que pretendo dominar. Ou isso ou perco a relevância na minha própria casa.  Estou frita, portanto. Não tenho como aumentar pressão, o tom ou a frequência dos gritos. Não tenho mais castigos para inventar e ninguém me leva a sério. Sou um sindicato que não mete medo a ninguém. Não sou notícia, vá, e tenho pouca adesão. Resta-me dar o braço a torcer. Assumir de uma vez por todas que eles é que mandam e ter esperança que o raio da responsabilidade chegará. Que um dia, num destes dias, um deles irá arrumar o quarto sem que eu precise de gritar, irá estudar sem ser sob coação e, quem sabe, pendurará o roupão.
Talvez um destes dias as migalhas da bancada da cozinha sejam limpas por quem as fez, os cereais sejam apenas comidos com leite e não como aperitivos, os banhos acabem antes de ter de se desligar a água quente e eles vão para cama sem que seja preciso ameaçar alguém fisicamente. Até lá, enquanto esse dia não chega, tentarei manter a calma e o poder. Só ainda não sei como.
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