sábado, 16 de janeiro de 2016

Babysitting

André Macedo
DN 20160116

Há dois aspetos que espantam nesta decisão de acabar com os exames no ensino básico: a rapidez furiosa como tudo foi despachado e a tolerância dos portugueses para aceitarem que um ministro verde, sem experiência política que se veja e sem currículo na área da educação, se tenha permitido mudar tudo a meio do ano letivo. Talvez António Costa ande demasiado preocupado com os assuntos económicos que tem espalhados sobre a mesa. Talvez lhe sobre pouco tempo para olhar com atenção para o resto. Ou então a explicação é outra, mais prosaica: além de ter de alimentar os impulsos revolucionários do PCP & Bloco de Esquerda - e dos poderosos sindicatos - para segurar um governo por natureza frágil, o primeiro-ministro parece inclinado a mudar de rajada tudo o que conseguir porque não sabe quanto tempo aguentará este seu governo. Para os alunos, a mudança é trágica. Retira a tranquilidade necessária a meio do ano letivo. Ridiculariza o sistema e parece tornar tudo mais fácil - como se a meio de uma corrida lhes fosse dito que afinal o que interessa é apenas participar. O governo pensou em como isto desmobiliza e frustra os que já estavam a estudar a sério? Para as empresas que montaram negócios a pensar nos exames - explicadores, coletâneas de testes, etc. - é mais uma prova da monumental confusão reinante. O ministro Tiago Brandão Rodrigues fica profundamente marcado por esta enorme precipitação. Tudo o que ele fizer daqui para a frente será olhado com desconfiança. Tornou-se, portanto, o elo político mais fraco quando ainda não estão cumpridos sequer os primeiros 100 dias de governo. Vai precisar de babysitting, muito babysitting, o que é um mau começo numa área tão relevante. Não se entende como o PS, que tantas vezes criticou Passos Coelho por se dobrar aos estudos do FMI, tenha sustentado uma decisão desta magnitude recorrendo infantilmente... aos estudos da OCDE. Bem prega Frei Tomás. Dizer que os exames são inúteis é outro disparate, até porque o efeito na nota de fim de ano é (era) marginal. Dizer que as crianças sofrem com a pressão é outra asneira. Para que servem os pais se não for também para ajudar as crianças a lidar com os obstáculos? É verdade que Nuno Crato pôs demasiada ênfase nos chumbos, hiperdramatizando os exames para mostrar músculo e exibir ideologia à lapela. Claramente, a escola é muito mais do que isso. Mas estarmos ainda hoje a discutir a avaliação nestes termos tão rudimentares - exames, sim ou não? - é sinal de que as nossas dificuldades como país não são fortuitas, são autoinfligidas, são uma tragédia cultural.
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