quarta-feira, 9 de março de 2016

Memórias de Cavaco

Alberto Gonçalves
DN 2016.03.09
A família de Aníbal Cavaco Silva entrou de mão dada no Palácio de Belém, faz hoje 10 anos. Depois de uma década como primeiro-ministro e uma derrota nas presidenciais, Cavaco tomava posse como Chefe do Estado
Quando Cavaco Silva rodou o Citroën BX, tomou o PSD e alcançou o poder, eu encontrava-me a meio da adolescência, circunstância que me terá feito imitar a célebre pergunta de Mário Soares: "Quem é esse gajo?" De certeza não me lembrava da passagem do prof. Cavaco pelo governo da AD, lapso desculpável (no meu caso, não no do dr. Soares) pela tenra idade.
À época, de resto, o célebre congresso da Figueira da Foz e as respectivas consequências não me abalaram por aí além: ao contrário de alguns colegas que faziam o tirocínio partidário nas associações de estudantes - e que eu evitava como se evita o tétano -, as coisas que me moviam aos 15 ou 16 anos resumiam-se à acumulação de discos (mania que se manteve), ficção literária (mania que se perdeu) e arrebatamentos amorosos (mania que não comento em público - ou em privado, já agora). Por puro desinteresse pessoal, a política estava reservada aos meus pais, aliás desconsolados desde a morte de Sá Carneiro. A ascensão do prof. Cavaco pareceu animá-los um bocadinho, e o suficiente para me espevitar a habilidade de irritar o próximo e brindar os parentes com umas frases depreciativas acerca do homem, emitidas sem fundamento nem convicção. Além disso, continuo a acreditar que a aquisição, lá para casa, de um carro da marca e modelo acima citados foi uma celebração inconsciente do acesso à prosperidade "europeia", e uma completa coincidência.
Em 1987, aconteceram as primeiras eleições que me permitiam votar e a primeira maioria do PSD: natural e civicamente, nem sequer levantei o cartão de eleitor. Em 1988, aconteceu o Independente, de que fui leitor ávido e ideologicamente neutro nos anos iniciais. É possível que a missão "anticavaquista" do semanário, que não o esgotava mas em boa parte definia, me tenha impelido a soltar ocasionais atoardas alusivas às meias brancas ou à genérica falta de "gosto" do prof. Cavaco. Isto se a audiência disponível simpatizava com ele. É igualmente possível que o tenha louvado junto de socialistas empedernidos. Em qualquer circunstância, tratava-se de provocações juvenis e alheias a uma ideia firme sobre o papel do então primeiro-ministro.
Não me mostrou a marquise das lendas. Mal me devolveu o olhar, atitude que atribuí a inexplicável timidez
Ainda hoje, diga-se, permaneço indeciso a propósito. Tenho a impressão de que o prof. Cavaco conduziu com razoável competência a dita integração europeia; duvido imenso dos méritos do triunfalismo, instrumental ou sincero, que a acompanhou. Não nego as estradas, as privatizações, a "normalização" da democracia, a melhoria do nível de vida e a modernização geral evidentes durante o "cavaquismo". Não estou seguro de que ocorressem graças ao prof. Cavaco ou apesar dele. Provavelmente, o prof. Cavaco não comprometeu o trabalho da inércia. Já não é mau. Péssimos foram os vícios lícitos e ilícitos que se desenvolveram a par do regime, o culto da "obra", em betão ou prosápia, o Estado em rédea solta, as ilusões de grandeza. Porém, também não acho justo que se responsabilize um único indivíduo pelas marcas da genuína identidade nacional. No máximo, o prof. Cavaco não conseguiu reformar-nos a sério. No mínimo, tal excentricidade nunca lhe passou sinceramente pela cabeça. O importante é que, na altura, eu não queria saber.  
Só o terceiro governo do prof. Cavaco (o segundo com maioria parlamentar) me apanhou "politizado". Dado que coincidiu com a universidade, e que cinco anos a estudar sociólogos malucos (com raras excepções) em aulas lecionadas por sociólogos analfabetos (sem excepções) transformam o mais anómico (ler Durkheim), aí por 1991 dei por mim cansado de sucedâneos de Marx. Aos poucos, comecei a reparar na existência da política e, para efeitos práticos, tornei-me aquilo a que, nas civilizações primitivas, se chama um reaccionário. Obviamente, não fiquei a venerar o prof. Cavaco - Deus me livre de algum dia alimentar tais sentimentos por um político. Mas a insurreição da ruidosa minoria perante as mudanças (escassíssimas que no fundo fossem), os protestos "espontâneos" daqueles derradeiros tempos, as sabotagens "abertas" do dr. Soares e o engajamento informativo dos media que um determinado governante abrira à iniciativa privada sugeriam que talvez houvesse muito pior. O "diálogo" de Guterres, contraponto vazio e perigoso à cultivada gravidade do prof. Cavaco, constituiu a prova definitiva.
Em 1995, enchi o peito de consciência, rumei à junta de freguesia e adquiri o direito de voto. Curiosamente, o Independente de Paulo Portas não me converteu ao CDS: Vasco Pulido Valente, que descobri n"O Independente ser o maior colunista português do século e adjacências, converteu-me a eleitor do PSD, pelo qual V.P.V. concorria a deputado (juro que o pormenor de Fernando Nogueira, o delfim enxovalhado, ter sido vizinho e amigo da minha mãe não pesou). Aos 26 anos, estreei-me, quase incomodado, na solidão da urna. Perdi. Aparentemente, ganhei-lhe o gosto e, três ou quatro meses depois, votei contra Jorge Sampaio. E enfim no prof. Cavaco, meias brancas incluídas. Perdi novamente.
A título de desforra, algures pelo meio inaugurei assaz discretamente uma carreira na crónica jornalística que vai longa e, suponho, não tão discreta.
Visto à distância, custa a crer que andei dez anos a escrever à revelia do prof. Cavaco, pelo menos enquanto personagem principal dos desvarios pátrios. Acumulei centenas e centenas de textos em que o protagonista político da minha vida adulta (e uns pozinhos) se forçava a espreitar na sombra, mais tarde a espreitar às claras, finalmente a admitir o regresso que, afinal, preparou com detalhe e paciência. Sete anos de ruinosa generosidade "guterrista" e dois mandatos do dr. Sampaio, estadista de quem era difícil discordar na medida em que era impossível compreender o que dizia, asfaltaram o caminho do prof. Cavaco.
Em 2005, ao serviço de outro jornal, penetrei um apartamento da Travessa do Possolo para entrevistar o favorito dos candidatos à presidência. Recebeu-me a apertar a camisa. Não me mostrou a marquise das lendas. Respondeu a tudo com ensaiada segurança. Mal me devolveu o olhar, atitude que atribuí a inexplicável timidez. Numa portentosa exibição de deontologia, voltei a votar nele. Com o residual entusiasmo do costume.
Descontados os milhões de criaturas que lhe deram quatro maiorias, o presidente Cavaco desfrutou da mesma impopularidade do primeiro-ministro. Em Belém, apenas se alteraram os critérios de avaliação do desempenho, supremamente vagos e discutíveis à semelhança das funções. Se o prof. Cavaco usava a discrição, a opinião publicada criticava-lhe o silêncio e arrasava-o por alegadamente se distanciar da realidade. Se o prof. Cavaco arriscava um palpite, a opinião publicada criticava-lhe a hipotética parcialidade e massacrava-o pela interferência abusiva. Escusado acrescentar que a opinião publicada traduzia em suma o ancestral desprezo da "nomenclatura" lisboeta pelo intruso que subira da província. O prof. Cavaco não era definitivamente "um deles", facto que ele reconhecia e cujas implicações adoptou com, julgo, particular prazer. No que me diz respeito, o subtil empenho com que sempre procurou indignar as nossas desgraçadas "elites" foi a sua grande virtude.
Salvo episódios fugazes e fugazmente embaraçosos, os defeitos não foram demasiados. Recuso-me a perdoar-lhe um, pontual, ligado a outro, "estrutural": a anedótica perpetuação de José Sócrates, inseparável da excessiva reverência que o prof. Cavaco dedica à estabilidade formal, frequentemente em prejuízo da estabilidade real. Nem os abismos em que o futuro inquilino do presídio de Évora enfiou o país chegaram para que o presidente o demitisse com justíssima causa. E as cautelas próprias do primeiro mandato não servem de (pífia) atenuante: o prof. Cavaco reelegeu-se em Janeiro de 2011; o "socratismo" caiu de podre em Março. A factura da deferência não saiu barata. Confesso reservas em duas matérias adicionais: o resgate do governo PSD-CDS após a demissão irrevogável de Paulo Portas e a resignação à recente aliança do PS com a extrema-esquerda. Em ambas as situações, o "institucionalismo" do prof. Cavaco prevaleceu. Se calhar adequadamente.
Pelo meio, convém notar que em 2010 aceitei por insistência de Vasco Graça Moura um lugar na Comissão de Honra da terceira candidatura presidencial do prof. Cavaco. Conforme prometido, a distinção não me deu trabalho nem lucro, descontando uns livrinhos autografados que, de longe a longe, me aparecem no correio. Não deixei de o atacar com certa regularidade por causa disso, e possivelmente com excessiva regularidade por causa disso.
Menos na inerente ambiguidade de Belém do que nos governos que liderou, o prof. Cavaco deixa um legado notável para os rasteiros padrões indígenas. Repito: ignoro se se limitou a retocar-nos a fachada por não querer, saber ou poder bulir na essência do atraso pátrio. A verdade é que, sem exageros nem fanfarras, Portugal é, trinta anos depois, um país melhor graças ao prof. Cavaco. Mas não a ponto de não poder piorar bastante na ausência dele. Como se verá daqui em diante.
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