domingo, 27 de março de 2016

O fio da meada

José Maria C.S. André
Correio dos Açores, Verdadeiro Olhar, ABC Portuguese Canadian Newspaper, Spe Deus, 27-III-2016

As notícias do Vaticano atropelam-se, com novos livros e documentos a sair a cada momento. Destaco três: o livro «O Nome de Deus é Misericórdia», com uma entrevista ao Papa Francisco; uma lição de Bento XVI, também sob a forma de entrevista, e a Exortação de 200 páginas «Sobre a Família Hoje» promulgada pelo Papa Francisco.
Qual é o fio da meada deste turbilhão editorial?
«O Nome de Deus é Misericórdia» é leitura obrigatória para perceber a Igreja do século XXI e o actual pontificado. Formalmente, é uma entrevista; na realidade é uma síntese, em primeira pessoa, do pensamento de Francisco. O tema central é a reconciliação, o actual ano jubilar dedicado à misericórdia, a pacificação das relações sociais e internacionais, mas sobretudo aquilo que o Papa considera o elemento característico da reconciliação: a Confissão. As explicações são vivas e claras. Por exemplo, acerca da razão para nos confessarmos a um padre em vez de só pedirmos perdão a Deus. São abundantes os neologismos e os «slogans». Por exemplo, «pecadores sim, corruptos não!»: não interessa se as faltas são grandes ou pequenas; pecadores são aqueles que se arrependem e se confessam, corruptos são aqueles que acham que não precisam de se confessar. O Papa alegra-se porque o número de confissões está a aumentar no mundo. Já na Bula do Ano da Misericórdia tinha falado de «tantas pessoas que se estão a aproximar do sacramento da Reconciliação, especialmente muitos jovens... coloquemos novamente no centro, com convicção, o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar com a mão a grandeza da misericórdia» («Misericordiæ vultus», 17). Quando o jornalista lhe pergunta o que espera do ano jubilar, o Papa responde: que cada cristão faça uma confissão bem feita.
A entrevista a Bento XVI é uma peça rara, porque o Papa emérito decidiu que a sua actual função é rezar e não discursar. A entrevista dirige-se a um congresso de teologia reunido em Roma e vários dos argumentos inserem-se em discussões teológicas um pouco técnicas. No entanto, o texto tem interesse para o público em geral, sobretudo por dois pontos. Primeiro, que a insistência de Francisco na misericórdia é um «sinal dos tempos», em sentido teológico, ou seja, uma intervenção do Espírito Santo na história da Igreja. Segundo, evangelizar o mundo é um dever de lealdade e de amor para com Jesus Cristo.
O Papa Francisco promulgou a Exortação pós-sinodal sobre a família no dia 19 de Março, festa de S. José. Já se pode reservar, mas vai demorar uns dias a chegar às livrarias. Recentemente, em Lisboa, o Presidente do Pontifício Conselho para a Família deu a primeira notícia: trata-se de um «hino ao amor», de uma afirmação da beleza da vida familiar, de um encorajamento a comprometermo-nos num amor mais forte. O próprio Papa acrescentou algumas explicações: Deus perdoa todos os erros dos homens, ama-nos mais do que podemos imaginar. Ninguém deve pensar que a sua vida está tão embrulhada que não tem solução, como se a saída justa fosse demasiado difícil para o próprio ou para os outros. Mesmo que a pessoa não esteja de momento em condições de comungar, há um caminho a percorrer cheio de confiança. É preciso pedir ajuda a Deus. E o Deus da Misericórdia dará a coragem e mostrará em cada caso o caminho, que é também o caminho do Céu.
O Papa escreve um hino ao amor verdadeiro, quando alguns esperavam que a Igreja declarasse guerra a si própria. O Cardeal Müller (colaborador próximo do Papa, responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé) justifica – num livro que também acaba de sair – que «a misericórdia não é renunciar aos Mandamentos de Deus (...). O maior escândalo da Igreja seria ela desistir de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal (...)». Em resumo, o nome da misericórdia é conversão.
Por estes dias, o Arcebispo Georg Gänswein (que trabalha com Francisco como Prefeito da Casa Pontifícia e continua a ser o secretário de Bento XVI) deu uma longa entrevista à emissora alemã «Deutsche Welle», que também vale a pena mencionar, sobretudo pelas referências à sintonia entre o Papa actual e o Papa emérito, e porque antecipa que a Exortação que está a chegar às bancas se situa nessa linha.

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