Ressentimento

Público 2012-02-02 Pedro Lomba

Fala-se hoje muito na ascensão e queda da classe média. O que é a classe média? Difícil saber. Em princípio a classe média designa um conjunto de pessoas urbanas e não rurais, com educação média e superior, hábitos de consumo e certos níveis de rendimento. É isto a classe média. Era isto a classe média.

O mais importante não é, porém, definir sociologicamente a classe média. O mais importante consiste em perceber como é que o Estado criou a classe média e, de seguida, como é que o mesmo Estado que criou essa classe média de uma determinada forma está agora a descriá-la, constituindo aquilo a que podemos chamar a "ex-classe média". A ex-classe média é uma nova categoria, pois conserva a memória de ter pertencido antes à classe média e vive a experiência da sua própria descida social.

Não é novidade que a classe média ascendeu em Portugal por acção do Estado e do poder político. Já o ouvimos de historiadores. Isto é, não surgiu espontaneamente, só porque o país cresceu alguma coisa. Esta classe média cresceu por impulso do Estado.

Em primeiro lugar, a classe média assistiu nas últimas décadas ao desaparecimento do mundo rural. Ocupou as periferias das cidades, aproveitando a política de rendas congeladas e, numa segunda fase, a democratização da compra de casa própria. O Estado interferiu activamente: não só ajudou à criação de um país de proprietários, como inúmeros governos a partir do cavaquismo foram incitando ao abandono dos campos. A Política Agrícola Comum, a transformação da nossa economia numa economia de serviços e os juros bonificados liquidaram o país da TV rural.

Segundo, pertencer à classe média a partir dos anos 90 significava terminar um curso superior. Foi o que nos disseram, foi o que quisemos. Uma licenciatura servia como título de promoção social e garantia melhores empregos e melhores remunerações. A paixão pela educação assoberbou quase todos os governos. A obsessão com o canudo foi também obra do Estado.

Por fim, a subida do nível de rendimentos também beneficiou de uma sustentação de expectativas em que o Estado, as eleições e os mercados de crédito fizeram o seu papel. Para ganhar eleições os partidos prometiam "fazer obra", aumentar salários, atribuir direitos. A cultura da dívida foi em parte o suporte da cultura de bem-estar. Mais uma vez esse aumento de expectativas brotou do Estado, que criou nos cidadãos sentimentos de titularidade e uma confiança infundada no progresso linear do país.

A democracia prometeu e é verdade que nos fez a todos mais de classe média do que no passado. Mas agora a crise do Estado redundou naquilo a que se tem chamado "a queda da classe média". E aquilo que ditou a sua emergência aluiu. O Estado suprime cursos superiores, corta financiamentos, cancela incentivos à aquisição de casa, revaloriza o interior.

O Estado que antes acabou com a agricultura recomenda que voltemos aos campos; os governos que antes abriram as portas das universidades, reconhecendo cursos e mais cursos, sugerem que aceitemos qualquer trabalho; o Estado que antes aumentava salários e assinava records legalizou hoje o grande retrocesso. O Estado manda-nos fazer absolutamente o contrário daquilo que nos disse.

Em crise é normal o retrocesso. Mas esta mudança irracional de sinais atinge o coração do regime, porque o Estado viveu as últimas décadas incentivando-nos para agir de formas que com a crise financeira passou a rejeitar.

Esta nova ex-classe média é por isso uma caldeira de desconfianças e ressentimento. Quem quiser perceber a luta entre classes neste tempo - uma luta que opõe a ex-classe média a todas as outras - não pode considerar apenas o económico. Tem de pesar estes aspectos psicológicos e morais. Tem de considerar a força deste ressentimento contra a absoluta cambalhota do poder político. Um ressentimento que os populismos de esquerda e de direita não deixarão de explorar. Jurista

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