O mito da "Europa"

Público 2012-02-19  Vasco Pulido Valente

A "Europa" nasceu de uma situação histórica irrepetível: da crise industrial na França (por falta de carvão que só a Alemanha lhe podia fornecer); de uma guerra em que, com a excepção da Inglaterra (e alguns neutros), do Báltico ao Mar Negro e da Roménia à França toda a gente perdera; da reconstrução urgente de um mundo em ruínas; do Plano Marshall; da garantia militar da América contra a URSS; do interesse ocidental na estabilidade política dos países que o Exército Vermelho ainda não ocupava; de milhões de homens temporariamente sem casa e sem trabalho; e da ineficácia (relativa) do bombardeamento aliado da indústria francesa e, principalmente, alemã. O extraordinário crescimento a partir de 1947-1949 não se compreende sem estas circunstâncias de excepção.

Quando apareceu, a CEE já encontrou a "Europa" em expansão e, para se legitimar, prometeu mais crescimento: um crescimento contínuo, capaz de assegurar o pleno emprego e desenvolver um Estado Social nessa altura embrionário e frágil. Enquanto o "milagre" económico durou, ou seja até à volta de 1970, a CEE, sob sucessivos nomes, pareceu a solução para os problemas que desde 1918 tinham afligido o continente. Pareceu, mas não era. E não o era principalmente como a entidade, há tanto tempo sonhada, que iria por fim constituir a unidade "europeia" e assegurar a paz (que, de facto, dependia da América). O mito que foi crescendo à volta de um arranjo circunstancial justificou passo a passo a instalação de um enorme aparelho burocrático e, com o tempo, produziu mesmo a ideia absurda que da vontade comum nasceria eventualmente uma grande potência.

Mas, disfarçado e discreto, o domínio da Alemanha estava lá desde o primeiro dia. E, depois de 1989, a Alemanha teve de escolher entre a "Europa", por assim dizer, democrática e "ordenada" da margens do Atlântico e do Mediterrâneo e a sua velha hegemonia na "Europa" central ou, se preferirem, oriental, que o colapso soviético punha de repente à sua mercê. Com a agravante de que o dinheiro desaparecia de um lado e não existia do outro. Enquanto se tornava óbvio que a estagnação do Ocidente não permitia a prazo a sobrevivência do Estado Social, o velho império do comunismo russo, agora "livre", batia à porta da imaginária riqueza da "União". E da Roménia ou da Hungria de Viktor Orbán a Portugal e à Grécia o poço da dívida aumentava. Para a Alemanha, que se decidira pelo "alargamento", ficava um único caminho: submeter a Europa inteira às suas regras. A realidade substituía para sempre a fantasia.

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