Deus não é para o bico da ciência

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 24 de fevereiro de 2012

Antony Flew (1923-2010) não foi um ateu de garagem. Flew foi o Dawkins do século XX, o líder do ateísmo que se julgava legitimado pela ciência. É por isso que a sua conversão foi um acontecimento tão polémico. Deus existe é a explicação dessa polémica descoberta. O grande motor da mudança? A teoria do Big Bang. Steiner diz, algures em Gramáticas da Criação, que a teoria do Big Bang é a tradução científica do livro do Génesis. Flew navegou por águas similares. Para este filósofo britânico, a teoria do Big Bang fornece a prova científica para aquilo que São Tomás de Aquino considerava inacessível ao conceito de prova: o começo do universo. Enquanto pensou que o universo era apenas um espaço ilimitado mas atemporal (sem um começo), Flew encarou o dito universo como um conjunto de factos fechado e à mercê de uma ciência toda-poderosa. Mas tudo mudou com o Big Bang. Se o universo teve um começo, então, a pergunta é inevitável: o que produziu esse começo? Quem deu o primeiro pontapé na bola cósmica? 

O que torna Flew num caso subversivo para o ateísmo hegemónico não é a mera conversão à ideia de Deus. A subversão está na forma, porque Flew chegou a Deus através da ciência, e não através da fé. Flew atingiu Deus através da física e da cosmologia. O ex-papa dos ateus pegou nos dados científicos, e Eureka: há um Deus subjacente à racionalidade da natureza e do universo. Tudo bem? Tudo mal. Deus não é um assunto científico. Deus não se prova ou desprova cientificamente. Deus é um salto de fé abraâmico, kierkegaardiano. Se Dawkins está errado, Flew também não está certo.
Sim, Dawkins tem direito ao seu ateísmo, mas já não tem direito a pensar que esse ateísmo tem certificado científico. A ciência não prova a não-existência de Deus. Deus é um assunto não-científico por excelência, porque Deus não está ao alcance do método científico. Mais: quando afirma que o seu ateísmo darwinista é a única resposta aceitável, Dawkins deixa de lado qualquer ceticismo em relação à sua própria teoria, acabando por esquecer que a ciência não anda à procura da verdade redentora. Todo o conhecimento científico assenta nesta arquitectura céptica: só podemos ter estabilidades teóricas, e nunca certezas teóricas; todas as teorias têm de ser falsificáveis, logo, todas as teorias são apenas possivelmente verdadeiras. Sem este mar de dúvidas, o espírito científico não sobrevive. Preso na fúria de negar Deus em nome da ciência, Dawkins acaba por desrespeitar a própria ciência.
Ora, se não prova a não-existência de Deus desejada por Dawkins, a ciência também não prova a existência de Deus. Flew diz que esta foi uma peregrinação da razão: "segui a razão até onde ela me levou. E ela levou-me a aceitar a existência de um Ser auto-existente, imutável, imaterial, omnipotente e omnisciente". Problema? Apesar das diferenças a jusante, Flew partilha com Dawkins um erro a montante: encara Deus como um desafio científico. Sucede que Deus e a fé não são assuntos empíricos, não são temas para o bico da ciência. Deus não se esconde na relação gravitacional entre planetas, mas na relação moral entre homens. Deus é um salto de fé ético, e não uma descoberta com tubos de ensaio. Flew percebeu que o ateísmo não era a resposta, mas teve medo de atravessar o deserto.

Comentários

Anónimo disse…
Sem dúvida, vivem-se tempos de grande confusão, inclusivé, sobre o que é científico. A ciência não só ciência experimental, aliás, esta até é apenas uma ciência de observação dos fenómenos. Embora DEUS não seja inteligível, não significa que não seja compreensível. Ninguém me vai dizer que uma pintura não tem o seu autor. Ninguém me vai dizer que não é possível saber muita coisa do seu autor pela pintura sobretudo se fôr um especialista (filósofo) de pintura (de metafísica), mais poderá falar sobre o assunto. A SAGRADA ESCRITURA fala dos cientistas que não terão desculpas por pesquisarem as maravilhas da CRIAÇÃO e não descobrirem nelas o seu AUTOR. O conhecimento científico não está reduzido ao conhecimento indutivo, mas inclui tambem o dedutivo. A demonstração da existência de DEUS já foi feita há muito tempo por indução analógica, isto é, pela observação da pintura se conclui pelo pintor sem preecisar da fé, apenas por argumentação dedutiva e, por exemplo, pode-se ver a tese e sua demonstração completa no livro «A Caminho da Verdade Suprema», livro de três volumes do padre Pedro Cerruti S. J., professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sobre o Big Bang, não foi nada demonstrado e nem acredito que, dessa descoberta, tenha dado origem à CRIAÇÃO, uma vez que as explosões não costumam criar, mas destruir, e a CRIAÇÃO não foi só do visível, mas do invisível, o Big Ben pertence ao visível. Estou à espera da tal prova e aposto, sem medo nenhum, que nunca se chegará a tal prova. A demonstração da existência de DEUS já foi feita no século XIII, etc.
Anónimo disse…
Sem dúvida, vivem-se tempos de grande confusão, inclusivé, sobre o que é científico. A ciência não só ciência experimental, aliás, esta até é apenas uma ciência de observação dos fenómenos. Embora DEUS não seja inteligível, não significa que não seja compreensível. Ninguém me vai dizer que uma pintura não tem o seu autor. Ninguém me vai dizer que não é possível saber muita coisa do seu autor pela pintura sobretudo se fôr um especialista (filósofo) de pintura (de metafísica), mais poderá falar sobre o assunto. A SAGRADA ESCRITURA fala dos cientistas que não terão desculpas por pesquisarem as maravilhas da CRIAÇÃO e não descobrirem nelas o seu AUTOR. O conhecimento científico não está reduzido ao conhecimento indutivo, mas inclui tambem o dedutivo. A demonstração da existência de DEUS já foi feita há muito tempo por indução analógica, isto é, pela observação da pintura se conclui pelo pintor sem preecisar da fé, apenas por argumentação dedutiva e, por exemplo, pode-se ver a tese e sua demonstração completa no livro «A Caminho da Verdade Suprema», livro de três volumes do padre Pedro Cerruti S. J., professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sobre o Big Bang, não foi nada demonstrado e nem acredito que, dessa descoberta, tenha dado origem à CRIAÇÃO, uma vez que as explosões não costumam criar, mas destruir, e a CRIAÇÃO não foi só do visível, mas do invisível, o Big Ben pertence ao visível. Estou à espera da tal prova e aposto, sem medo nenhum, que nunca se chegará a tal prova. A demonstração da existência de DEUS já foi feita no século XIII, etc.

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