A nova luta de classes

Público 2012-02-16  Pedro Lomba

Li outro dia aqui no PÚBLICO a carta de um leitor que se referia à Alemanha como a "besta nazi". Na véspera ouvira num Fórum TSF um participante acusando a Alemanha de "grande vergonha" condizente com outra "grande vergonha" dos campos de concentração, como se existisse continuidade entre a opressão dos anos 40 e a "opressão" de Merkel. Há uma conhecida graçola, mais sobre Israel, que diz que é sempre uma questão de tempo até aparecer numa discussão o argumento do Holocausto. Neste caso, por mais bárbaro ou gratuito que seja aludir-se aos traumas alemães para convencê-los das suas responsabilidades na Europa, há outra intencionalidade por trás.

De cada vez que ouço alguém afirmar que "somos gregos" ou "somos como a Grécia" não penso que essa pessoa esteja apenas protestando contra a forma como os Governos em apuros, incluindo o português, proclamaram alto e bom som "não somos a Grécia". Nem penso que seja apenas uma declaração de solidariedade. Não, o que essa pessoa está também implicitamente a dizer é que, por sermos todos gregos, "nós não somos alemães". O barco da periferia é comum, mas não é o barco desta Alemanha que conserva o poder de suster a nossa hemorragia e só se tem aguentado em parte devido ao naufrágio do Sul.

O filósofo e jurista Carl Schmitt, de má memória por causa das suas ligações ao nazismo, mas hoje recuperado à direita e à esquerda, disse que um povo ou uma opinião pública só podem existir politicamente na presença duma "ameaça existencial". Este "somos todos gregos" significa, neste contexto, a tentativa confessa de criar uma opinião pública periférica, uma união entre povos desvalidos e endividados, convencida de que só uma luta de classes de nações pode enfrentar o despotismo alemão. Para essa opinião pública este despotismo tem nome: austeridade. Na verdade, o modo como alguns ridicularizam o cumprimento do memorando da troika, como se fosse um sinal de que não nos serve de nada ser bons alunos e bem-comportados, enquadra-se no mesmo espírito. Somos e devemos ser todos gregos, porque somos ameaçados e punidos pelo grosso dos alemães.

Mas há uma segunda variante do "somos gregos", talvez menos divisionista. Consiste em insistir, como se lê no novíssimo manifesto de Mário Soares, na dimensão europeia dos problemas do euro contra a cegueira dos particularismos nacionais. Somos gregos porque somos europeus e porque o nosso desastre não é nem grego nem português, mas europeu. Ora, nesta etapa das coisas ninguém pode ter dúvidas acerca dessa dimensão europeia.

Só que dizermos continuamente que os portugueses são como os gregos porque esta é uma crise europeia, ou dizermos que os problemas de Portugal começam na Europa, será sempre politicamente insuficiente e estéril se pelo meio não se reconhecer aqueles problemas que são apenas nacionais. Primeiro, porque ninguém poderá negar que são mesmo nacionais, consequência de economias fracas, Estados clientelares e finanças públicas desorganizadas. Segundo, ainda que por essa via pudéssemos persuadir a Alemanha a ver gregos e portugueses como europeus aflitos, para que nos serviria a retórica do "somos a Grécia" senão para os afastar ainda mais da unidade a que ambicionamos?

Até podemos gritar em Lisboa ou Atenas que somos gregos e europeus, mas se nos esquecermos que também somos portugueses quem nos levará a sério? É isto que algumas brigadas, decerto bem-intencionadas, se recusam a ver. Sonham com uma nova luta de classes de nações capaz de vergar a resistência alemã, escapando assim à austeridade. Temo que, com ou sem federalismo, acabaremos por descobrir o que já sabíamos: somos e continuaremos a ser portugueses. Jurista

Comentários

Muito boa opinião. Temos ainda que deixar de culpabilizar os outros e trabalharmos, pois é a única saída para a "crise". Temos de voltar ao sector primário. Sector este que foi morrendo ao longo de políticas suícidas de sucessivos governos. Temos de empreender e desprender do Estado. Os jovens tem de pensar que realmente tem que fazer alguma coisa, uma vez que estão habituados a que caia tudo do céu. Agora sim defendo que é tempo de luta mas não a "luta" desordeira que os sindicados organizam para se poderem pavonear à vontade. A luta é feita com trabalho, na capacidade de demonstrarmos que somos bons, realmente muito bons naquilo que fazemos. Temos de ter um sistema de avaliação rigoroso. Que seja capaz de premiar o mérito e o esforço e que condene aqueles que nada querem fazer. Não estamos em tempo de conversas mas sim na altura ideal para agir.

Joao saramago tavares

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