A "Dama de Ferro"

Publico 2012-02-13
João Carlos Espada
Em boa verdade, Margaret Thatcher nunca quis, nem precisou, de ser amada por todos

Chegou finalmente a Lisboa o já tão discutido filme sobre Margaret Thatcher. O Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica escolheu-o para inaugurar o ciclo sobre "o filme político" que, à semelhança dos velhos cineclubes universitários, irá decorrer durante o presente semestre lectivo. Foi um bom começo.

Será difícil fazer justiça ao extraordinário desempenho de Meryl Streep no papel da "Dama de Ferro". Mais discutível é sem dúvida a escolha do realizador, ao centrar o filme na fase final da vida de Thatcher, cuja reconstituição tem sido questionada por vários observadores que lhe são próximos. Mas, como escreveu Charles Moore, o biógrafo autorizado de Thatcher, na Spectactor, a magistral representação de Meryl Streep acaba por humanizar a "Dama de Ferro", talvez mesmo aos olhos dos que "adoraram odiá-la".

Só que, em boa verdade, Margaret Thatcher nunca quis, nem precisou, de ser amada por todos. Só os líderes totalitários, ou os líderes fracos, de que os totalitários são em regra um subgrupo, precisam do aplauso geral. Aos líderes democráticos com verdadeiro sentido de liderança, basta-lhes o apoio da maioria e a crítica livre da oposição. Margaret Thatcher obteve isso mesmo, com um bónus: alcançou três maiorias absolutas e, como candidata a primeira-ministra, nunca perdeu uma eleição popular - facto que aliás me recordou, quando tive a honra de conversar com ela, há uns dez anos, nos Cabinet War Rooms, em Londres, por ocasião do lançamento de um livro sobre Churchill, de quem era incondicional admiradora.

Mas também não foram só três maiorias absolutas o que Margaret Thatcher alcançou. Como escrevi neste mesmo jornal há mais de vinte anos, em 27 de Novembro de 1990, no exacto dia da segunda volta da eleição para a chefia do Partido Conservador após a saída de Thatcher, "o balanço do reinado da sra. Thatcher é bastante mais simples do que tem sido dito e pode ser descrito assim: antes dos mandatos de Thatcher e Reagan, discutiam-se modelos para um "socialismo de rosto humano". Depois deles, discutem-se modelos para "um capitalismo de rosto humano". A meu ver, o progresso foi inestimável."

O trabalhista Tony Blair concordaria certamente com esta observação, de que ele foi um dos melhores exemplos. Ele aboliu a famosa cláusula IV do programa do Partido Trabalhista, na qual se reclamava a colectivização dos principais meios de produção. E declarou que a esquerda moderna já não aspirava a uma espécie de colectivismo democrático, mas apenas a uma redistribuição mais justa da riqueza produzida por uma economia de mercado - a qual, reconheceu, constitui o melhor mecanismo para gerar riqueza e liberdade. Esta foi, sem dúvida, uma das principais e mais duradouras vitórias da Sra. Thatcher.

Outra grande vitória, que protagonizou com Ronald Reagan e, noutra dimensão, com João Paulo II, foi a queda do muro de Berlim e a implosão do império soviético. Hoje, quase todos esses países, embora ainda não todos, dispõem de economias de mercado e democracias liberais. Passaram a existir partidos livre, uns mais à direita, outros mais à esquerda. E o que eles discutem não é como criar um socialismo de rosto humano, mas, mais precisamente, que políticas adoptar para ter um capitalismo de rosto humano. Para avaliar a diferença, basta perguntar a um polaco, ou a um checo, ou a um eslovaco, ou a um cidadão de uma das repúblicas bálticas.

Em rigor, Margaret Thatcher e Ronald Reagan não exprimiram primordialmente uma vitória da direita sobre a esquerda. Exprimiram e alcançaram uma vitória do bom senso do homem da rua sobre as ideologias colectivistas que tinham embriagado, ou amedrontado, boa parte das elites ocidentais durante a década de 1970. Thatcher e Reagan fizeram-no sem dúvida partindo da direita. Bill Clinton e Tony Blair completaram o regresso do bom senso, partindo da esquerda.

É certamente uma ironia que, 22 anos após a saída de Thatcher, o mundo ocidental se confronte com uma situação tão semelhante à que ela enfrentou em 1979: Estados falidos, crescimento medíocre ou inexistente, desemprego-recorde, impostos altos. Quem disse que a mensagem de Margaret Thatcher estava ultrapassada?

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